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L´Accordeur de silences (Jesusalém)

Moçambique: o último título de Mia Couto em francês em Montreal

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

O escritor bem conhecido Mia Couto mergulha nas contradições duma família desarticulada do seu país com um livro recentemente publicado em francês, testemunha duma escrita alerta e dum espírito fino. Um sentido extraordinário da ficção. Não um romance estruturado com uma intriga nem um suspenso constante, mas a ocasião de pintar um quadro humano. Além disso, reflexões sobre a vida, os humanos e o universo.

miacouto plus haute resolution

São precisas umas dezenas de páginas antes de entrar no universo da fábula de Mia Couto. Trata-se do doloroso Moçambique profundo do autor? Em que época? Quem são estes personagens que flutuam no ar do deserto e da selva? Mesmo o título escolhido para a tradução francesa parece querer manter a ambiguidade: «O Afinador de silêncios».

O título original também nada diz: «Jesusalém». O nome do local fictício onde estão exilados os protagonistas é uma palavra composta de Jesus e além.

Cinco Moçambicanos

Se o biologista Mia Couto decidiu não analisar o quadro da ação, ao contrário os personagens de «além» são bem vivos na sua aflição. O narrador Mwanito (onze anos, rapazito nascido para se calar) e o seu irmão Ntunzi (o bode expiatório) são os filhos do velho Silvestre Vitalício, homem casmurro como a agulha duma bússola. Há também o jovem Zacaria, sempre acompanhado duma espingarda. E ainda o tio Aproximado.

 

accordeu de sliences

As mulheres neste quadro monoparental? Mwanito e Nutzi lembram-se com nostalgia da mãe morta, Dordalma, e assim a palavra saudade volta regularmente no texto de cerca de 300 páginas. Há ainda a presença perturbante de Marta, a branca tuga (portuguesa), nesta terra dolorosa que dá lugar a todas as reflexões sobre o amor da parte dos cinco machos. A linguagem é às vezes poética, mas por vezes crua, neste «mundo de merda» que é o refúgio deles longe da cidade.

Nascido em 1955 na Beira (cidade natal da diretora da Galerie 3C, Cláudia Chin, que o LusoPresse apresentou recentemente), o prolífico Mia Couto usa vários chapéus com a experiência de jornalismo, depois do ensino da biologia e da ecologia na universidade. (Decerto que ele teria muitas trocas de impressões a fazer com o nosso Boucar Diouf, o oceanógrafo que passou ao ensino e agora a uma profissão dirigida para o grande público). O filho de emigrantes portugueses faz-nos apreciar a sua sabedoria: «Os fantasmas nacionais não se entendem bem com os estrangeiros» ou aquela que ele põe na boca do tio Aproximado: «Quem quer a eternidade olha para o céu, quem quer o instante olha para a nuvem».

Boa partilha do autor

L´Accordeur de silences passeia-nos brevemente à beira do Tejo, em Lisboa, mas sem filosofar. Por outro lado, aqui e ali, os nomes de árvores como o mafura e o ntondo assim como a burra chamada Jezibela fazem-nos sentir o continente africano. Os Brasileiros vão aí encontrar o Chico César com esta bonita frase da sua canção Templo: Se você olha para mim eu me derreto suave, neve num vulcão... Os Açorianos acham uma menção do triste rei Gungunhana (1850-1906), arrancado à sua África pelas autoridades coloniais e abandonado até à morte no exílio da Terceira.

Mencionemos que as Éditions Métailié (Paris) possuem uma «Bibliothèque Portugaise» duma quinzena de títulos, dirigida pelo historiador de arte e tradutor Pierre Léglise-Costa, com autores como Lídia Jorge para não mencionar senão este nome (ver o artigo recente da minha colega Inês Faro). Anne-Marie Métailié escreve que a sua casa pública muita vezes autores ainda desconhecidos no seu próprio país, mas que não o vão ficar por muito tempo.

Este mês, o professor Couto deixa a sua universidade de Maputo para uma tournée de promoção em França. Porque não no próximo ano no Salão do Livro de Montreal? Entretanto L´Accordeur de silences está exposto na vitrina da livraria Gallimard, 3700 Saint-Laurent. Enfim, obrigado à tradutora Elizabeth Monteiro Rodrigues de nos fazer conhecer este autor (duma vintena de títulos) aos leitores da francofonia. Boa partilha intercultural entre a Lusofonia e a Francofonia.

(www.editions-metailie.com)

Ler aqui a versão francesa
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