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rss  Vol. XV - Nº 248         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 27 de Maio de 2020
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Editorial

Oligocracia cancerosa

Por Carlos de Jesus

Para que serve a monarquia? A questão tem-se posto nestes dias com a visita ao Canadá de William e Kate Middleton, duque e duquesa de Wales e futuros monarcas do Canadá.

editorial harper william
Williams e Kate ladeados pelo primeiro-ministro canadiano Stephen Harper e esposa, Laureen Harper

Como se trata de um simpático e jovem casal, casadinhos de fresco - cujas núpcias foram dignas de Walt Disney - a sua visita tem-se revestido mais do folclore duma tournée de rock stars do que de uma visita real. Daí que o aspeto constitucional e político a que esta visita podia dar azo, raramente tenha sido levantado pelos editorialistas e comentadores, e ainda muito menos pela opinião pública em geral. O correio dos leitores, os comentários nos blogues, tem sido, no máximo, duma extrema indiferença, quando não de franca simpatia. Mesmo o receito de confrontos violentos com os manifestantes mais antimonárquicos ou independentistas, durante a sua passagem pelo Quebeque, acabou por não se justificar, tendo estes últimos a boa ideia de contestar a visita do príncipe William com manifestações bem-humoradas de tipo carnavalesco.

Mas a questão persiste. Para que serve a monarquia, quando vemos que se trata de uma instituição antidemocrática - uma função reservada por nascimento e não por plebiscito popular - e quando o poder de que o monarca dispõe é mais simbólico que outra coisa. Inclusivamente, no caso do Canadá, os seus poderes são praticamente inexistentes, visto estarem delegados num representante, o Governador-geral, cuja designação é prerrogativa do primeiro-ministro canadiano. Mas não deixa de ser um anacronismo o facto de a atual rainha da Grã-Bretanha, uma soberana estrangeira, ser também a rainha do Canadá como diariamente somos lembrados ao manusear os dólares canadianos.

Esta é contudo uma incongruência da história, difícil de ser alterada. Primeiro, devido à constituição canadiana que exige o voto unânime de todas as províncias e territórios para modificar a constituição. (A questão constitucional do Quebeque ainda não foi resolvida, exatamente como consequência desta imposição). Em segundo lugar, no Canadá inglês sobretudo, o movimento monárquico ainda está muito ativo, alimentado pelas gerações de orangistas que se opuseram à independência dos Estados Unidos e encontraram deste lado da fronteira a forma de manterem a sua filiação à coroa britânica. Em terceiro lugar, porque é preciso encontrar uma alternativa ao papel do monarca, o que não é evidente, como bem provou o resultado negativo do referendo para a abolição da monarquia na Austrália, outra ex-colónia da Grã-Bretanha. Não obstante o movimento republicano naquele país ser bastante forte, as dificuldades em definir os direitos e deveres dum presidente, assim como os custos com a instituição presidencial, levaram uma maioria a votar pela conservação da Rainha Isabel II, um monarca dos antípodes, como chefe de estado.

Há uma outra razão pela qual uma boa parte da opinião pública não se ofusca com o aspeto antidemocrático da instituição monárquica. Em termos de democracia, há outros aspetos muito urgentes, muito mais graves, muito mais antidemocráticos, muito mais lesivos da vontade popular do que o poder residual dum monarca ausente. Referimo-nos ao poder do dinheiro que tem vindo a corromper as instituições democráticas e detem o destino das nações sem ter que dar contas a ninguém.

Com a queda do muro de Berlim, o dinheiro deixou de ter medo do papão comunista e lançou-se num assalto desenfreado às instituições democráticas em todo o mundo, comprando a opinião pública com os seus jornais e as suas televisões, comprando eleições e deputados, comprando leis e abrigos fiscais, comprando juízes e jurados. Mais ainda, com os seus sistemas de rating financeiro, absolutamente opacos e desonestos (como ficou provado com as cotas AAA dadas às notas fiduciárias envenenadas que estiveram na origem do último crash financeiro), ameaçam levar à banca rota os estados que lhe procuram fazer frente, como aconteceu recentemente com Portugal.

O capitalismo, como sistema político, ainda tinha uma filosofia e alguns ideólogos capazes de promoverem as vantagens da propriedade privada e da iniciativa empresarial sem perderem de vista o valor do trabalho, nem que fosse pela sua vertente mercantil. Não foi Henry Ford que decidiu aumentar o salário dos seus operários para que eles pudessem comprar automóveis?

O mundo do dinheiro, sob o eufemismo de mundo financeiro, não tem outros interesses para além da acumulação da riqueza, em proporções que desafiam qualquer bom senso. A sua visão não vai mais longe que o lucro a curto prazo, doa a quem doer. Superam as instituições nacionais, impõem-se em todos os continentes e vão ao ponto de criarem falsas situações de penúria para melhor dominarem os estados. Quanto mais crises económicas, melhor para eles. Fazendo aumentar as taxas de juros, sob a falácia de riscos que as suas agências de rating criam artificialmente, aumentam mais facilmente os lucros com os empréstimos com que mantêm manietados os estados democráticos.

O mundo do dinheiro é o maior obstáculo às instituições democráticas e ao poder do povo. De longe superior aos regimes monárquicos. Não admira que o número de eleitores seja cada vez menor em todas as eleições, sabendo os abstencionistas que votar em nada muda quanto aos verdadeiros senhores da sociedade e das suas instituições.

Se o poder da monarquia é apenas simbólico, o da oligocracia financeira é o cancro da democracia.

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