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rss  Vol. XV - Nº 239         Montreal, QC, Canadá - sábado, 27 de Fevereiro de 2021
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Palavras e ideias

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*

Especial LusoPresse

O inacreditável aconteceu! O Presidente Hosni Moubarak do Egipto caiu e abandonou o poder apenas 18 dias depois do começo das demonstrações populares exigindo a sua saída. Pessoalmente, como leigo que sou sobre a questão, imaginava que ele se agarrasse ao "trono" durante mais algum tempo. Obviamente, não foi só o povo na Praça Tahrir, no Cairo, que decidiu que tinha chegado a hora para uma mudança política no país. O poder militar também (e sobretudo!) determinou que Moubarak tinha de sair JÁ. O que não sabemos, e com certeza nunca iremos saber, é qual terá sido o papel e a influência que algumas forças políticas e militares, entre outras, terão jogado, num primeiro tempo para levar as massas à rua e, em seguida, para orquestrar o cenário que levou ao desfecho tão rápido da questão. Pode dizer-se, no entanto que, quer como atores, quer como meros espectadores e guardiães, os militares egípcios ajudaram a alimentar a revolta e foram os principais instrumentos do desfecho da "revolução popular". Vamos agora esperar para ver o que vem pela frente. Esperemos que nenhum grupo fundamentalista venha a ocupar o lugar deixado vazio pelo antigo regime, e que não nos vamos deparar com uma teocracia substituindo uma ditadura. Vamos também esperar que nos cheguem os relatos dos especialistas sobre a fortuna roubada ao seu povo por mais um político e ditador corrupto e seu "gangue" de parentes, amigos e protegidos. Já se está falando de mais 60 mil milhões de euros... (Ao escrever esta matéria, dei com a notícia de que o Senhor Moubarak encontrar-se-ia muito doente, depois de ter sofrido uma crise cardíaca. Fala-se mesmo de um estado de coma. Pobre fim para um ditador que outrora fora amado e adulado pelo seu povo, e considerado durante muito tempo como um grande filho da nação e o benfeitor político do país!

A experiência que está sendo vivida no Egito, consequência do aparente golpe popular, é diferente do que aconteceu em Portugal no dia 25 de Abril de 1974. A nossa Revolução dos Cravos foi, na verdade, consequência de uma ação corajosa e determinada dum grupo de jovens oficias militares portugueses que organizaram e levaram a bom cabo um golpe militar. Só depois, quando o ato já tinha sido consumado e o regime ditatorial posto a caminho, só depois o povo se juntou ao movimento e jogou um papel marcante. Talvez o golpe de 28 de Maio de 1926, iniciado em Braga, que foi também militar mas que contou com a participação de uma parte da população da região - os Nortenhos portugueses sempre foram valentes e gente de caráter! -, talvez esse golpe tivesse mais semelhanças com o que se passou no Cairo. Sem esquecermos, no entanto, o fato desse Movimento do 28 de Maio ter dado nascimento ao regime de Salazar e à ditadura que iria assolar Portugal e os Portugueses durante mais de 40 anos. Vamos lá a ver qual será o amanhã do povo egípcio e, mais ainda, quais serão as consequências no resto do mundo árabe. Fiquemos atentos à Síria, ao Líbano, à Jordânia, etc., e até mesmo ao regime dos Aiatolás e do presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irão. O mundo parece estar dando grandes voltas. Oxalá que seja para melhor... E que dizer do simplismo e da irresponsabilidade daqueles que, por aqui, no Quebeque, já estão tentando subir a alguns palanques proclamando: "Se os Egípcios conseguiram... porque não nos mobilizamos nós também, quebequenses, indo à rua para forçar o Charest a demitir-se?" Pobres simplistas, anarquistas amadores!

Portugueses aventureiros

De vez em quando, nas minhas viagens para Portugal, sou testemunha de um ou outro indivíduo sendo expulso do Canadá pelas autoridades locais. Não é caso raro depararmo-nos na sala de espera para os voos da SATA, no Aeroporto Pearson de Toronto, com algum desses indivíduos esperando a hora de embarque, acompanhado sob boa vigilância quer por membros da Agência de Serviços de Fronteira do Canadá, quer por agentes policiais ou outros órgãos de segurança. Isso foi aliás o caso na minha última ida a São Miguel, em Dezembro passado.

Primeiro apareceu um rapaz aparentando 25 ou 26 anos, escoltado por dois agentes de segurança de bom porte. Como o voo atrasou, os agentes de segurança ficaram com o tal personagem durante duas ou três horas. Neste caso em particular, o indivíduo terá causado alguma algazarra na cabine durante o voo, de tal forma que, a pedido do Comandante, foi colhido pela polícia ao chegar a Ponta Delgada e levado para fora do avião "manu militari". Um outro indivíduo, aparentando ser um pouco mais velho, também foi expulso do país nessa mesma viagem, sendo ele escoltado até ao avião da SATA por Agentes do Serviço de Fronteiras e da Imigração do Canadá. Creio que esse último ia rumo ao Continente.

Relato estas situações devido a uma preocupação que tenho cada vez mais em relação a uma potencial exigência que venha a ser imposta (outra vez!) pelas autoridades canadianas para que os cidadãos portugueses querendo visitar o Canadá necessitem de visto emitido pelas respetivas embaixadas ou pelos consulados do Canadá lá fora. Já tive a oportunidade de relembrar numa das minhas matérias anteriores neste jornal a questão da eliminação da exigência dos vistos pela qual lutamos em 1997. Na época, eu tinha tido a honra de liderar um grupo de Portugueses e Luso-canadianos nessa luta que nós ganhamos, quando foi anunciada a extinção da dita exigência pela ministra Lucienne Robillard, a partir de 1 de Maio de 1997. Coincidência (!) sem dúvida, a decisão da ministra foi tomada e anunciada dias antes da eleição federal de 2 de Junho daquele ano. Já havia onze anos, desde 1986, que a exigência dos vistos tinha sido imposta aos cidadãos portugueses desejando visitar o Canadá, pelo governo canadiano da época, por coincidência dirigido pelo Partido Conservador. Aliás, foi também esse mesmo partido que em 2006, apenas umas semanas após a sua eleição em Janeiro daquele ano, iniciou a expulsão de dezenas de cidadãos portugueses residentes no Canadá sem a devida documentação. A maioria dos casos envolvia pessoas que estavam aqui havia vários anos, e que, sustentados pelas promessas vazias de políticos sem escrúpulos, viviam no dia-a-dia com a esperança de que suas situações seriam normalizadas (regularizadas) e que os tais documentos lhes seriam entregues a qualquer momento. Não imaginavam, nem nos seus pesadelos, que os funcionários dos Serviços de Imigração viriam a convencer o novo ministro da Imigração da época, Monte Solberg, a ordenar a expulsão do país desses cidadãos e suas famílias. Eu também tinha lutado e feito lobby naquela época para que parassem tais deportações e expulsões.

A crise socioeconómica que se está vivendo em Portugal atualmente está levando várias pessoas, muitas delas por necessidade e por desespero, a buscarem uma bóia de salvação em outros lugares. Muitos desejam emigrar, e não há dúvida de que o Canadá é e será uma das opções que vários irão escolher. Por outro lado, infelizmente, muitas dessas pessoas ou não têm uma formação condizente com as novas exigências de imigração canadianas, ou não têm a experiência profissional também condizente com as expectativas canadianas. Daí a tentação de "dar o salto aventureiro", e o perigo que isso poderá vir a representar em relação à imposição da exigência de visto à qual me refiro aqui.

Sabemos que esses "aventureiros", nossos compatriotas, já existem. Em Setembro passado, num voo de Montreal para Ponta Delgada, vim também a conhecer um senhor viajando na Classe Executiva. Muito divertido e muito falador, o senhor contou-me que estava regressando para casa, depois de ter passado quatro messes aqui em Montreal. Tinha vindo "ganhar uns troquinhos", segundo me contou, trabalhando com um cunhado na instalação de "pavé uni" durante o verão. Era o quarto ano, segundo me parece, em que fazia isso. Sem dúvida beneficiando-se de algum estratagema bem estabelecido, esse senhor achou a brecha do sistema que (por enquanto) lhe vem permitindo de se juntar à mão-de-obra ilegal e, sem dúvida, barata que regularmente vem bater às costas canadianas. Como nós Portugueses não temos reclamações a fazer nem razões para pedirmos asilo, o risco é grande de que alguns venham a cair nas malhas dos Serviços de Imigração canadianos, com as consequências que podemos imaginar. E isso, só viria a prejudicar aqueles Portugueses, nossos familiares e amigos, assim como profissionais e pessoas de negócio que desejam visitar o Canadá, e que hoje podem cá vir sem a exigência do tal visto.

Não sei se é uma coincidência, mas as tristes lembranças e recordações que carregamos a respeito dos vistos e a respeito da expulsão de Portugueses aqui radicados sem a devida documentação parecem sempre ter a mão do Partido Conservador por detrás delas. Não duvido que Portugal seja sempre considerado um país amigo do Canadá, e não terá sido a recente derrota do Canadá nas mãos da diplomacia de Portugal para a obtenção da cadeira no Conselho de Segurança da ONU que terá mudado isso, nem que virá a ter qualquer influência na apreciação do Governo do Partido Conservador sobre os Portugueses e sobre quaisquer eventual decisão que nos vise. Mas, olho!...

Esta é uma realidade que poderá vir a transformar-se em pesadelo. Por isso, achei por bem utilizar a maioria deste espaço que me é proporcionado nesta edição do jornal para lançar uma espécie de alerta: temos o dever de sensibilizar os nossos parentes, amigos e outros conhecidos em Portugal, com aspirações de cá virem parar, de que o Canadá é um país de direito, cujas leis devem prevalecer perante qualquer ambição de emigração ou de aventura.

«Eu quero conhecer os pensamentos Dele (Deus), o resto são detalhes.» Albert Einstein

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá

O tempo no resto do mundo

Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
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