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rss  Vol. XV - Nº 239         Montreal, QC, Canadá - sábado, 27 de Fevereiro de 2021
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Futebolnomia com frangos

Por Onésimo Teotónio Pereira

Vai longe o Mundial. As férias também. Mas esteve aí o nosso Duarte a passar uma parte das suas. Sim, o Duarte, de quem eu em tempos contava algumas piadas. Elas saltavam-lhe, livres e frescas, da boca sem travões. Anda mais sério, pois o trabalho na empresa puxa. Continua, porém, a ler imenso e a atiçar-me à leitura de alguns livros a fim de trocarmos opiniões. Desta vez trouxe-me Soccernomics, de Simon Kuper (cronista do Financial Times) e Stefan Szymanski (Professor de Economia em Londres). O subtítulo: (traduzo) Porque a Inglaterra perde, porque a Alemanha e o Brasil ganham e porque os EUA, o Japão, a Austrália, a Turquia - e até o Iraque - estão destinados a tornarem-se reis do mais popular desporto do mundo. Assim mesmo. Prometendo desvendar todos os mistérios com iluminadora aplicação da ciência estatística ao futebol, e com pretensões a destronar ideias impressionistas, sem base empírica.

Li e aprendi, que o Duarte tem sempre boas recomendações. Estou completamente fora de jogo no assunto e nem deveria vir para aqui botar sentenças, mas há duas ou três entradas em falta. A primeira é um derrube da lógica e merecia grande penalidade. Os autores propõem-se explicar as causas dos triunfos dos países europeus nos Campeonatos do Mundo. No entanto, o seu modelo explicativo, para ser válido, deveria permitir-nos entender por que razão foi um país da América Latina - o Brasil, claro! - quem obteve o melhor palmarés: cinco de um total de 18. E as análises estatísticas ainda se complicam mais quando verificamos (não sabia, mas fui consultar a NET e fazer contas de somar) que afinal os países da América Latina totalizaram nove triunfos, tantos quanto os europeus. Outro penalty por entrada em riste na grande área da explicação científica.

Mais adiante os problemas alastram, não já devido a estatísticas mas a elucubrações históricas. Os triunfos das equipas ibéricas nos primeiros anos da Taça dos Campeões Europeus - seis para o Real Madride dois para o Benfica - são (pasmem!) atribuídos ao fascismo. Supostamente, o Generalíssimo Franco não perdia um jogo dos merengues. Transístor no ouvido, seguia os relatos onde quer que estivesse. Não financiava a equipa, mas dava-lhe um grande apoio moral. Claro que os autores não se preocuparam com verificar se Salazar era do Benfica e se também mandava mensagens telepáticas, pois não tenho notícias de ele seguir os jogos pela voz de Artur Agostinho. Mas voltemos às contas. Derrubados os fascismos ibéricos, Portugal e Espanha continuaram a ganhar: mais oito Taças dos Campeões Europeus. A Espanha teve seis à sua conta - quatro para o Real Madrid e duas para o Barcelona; Portugal duas, para o Porto. Com democracia na Península Ibérica, portanto. Mais ainda: os clubes italianos arrecadaram um total de doze, e tudo quando Mussolini estava há muito enterrado. (Para não irmos mais longe perguntando aos autores se a selecção alemã e os clubes germânicos terão obtido triunfos em competições internacionais nos tempos de Hitler).

Posso insistir? A Grécia não teve fascismo, mas arcou com uma ditadura. Isso contará? É que a sua vitória no Campeonato da Europa (ainda não lhe perdoámos essa, pois não?!) aconteceu umas boas décadas depois de os gregos readquirirem a liberdade.

Como se aprende nos cursos de Introdução às Ciências, os modelos têm de servir perfeitamente para explicar casos congéneres, bem como prever casos futuros em rigorosa simetria. Ora bem. Desnecessário será empolar a conversa. Não é preciso ter-se um canudo em Estatística nem Econometria (sequer em Futebolnomia) para se topar estes frangos num livro tão saudado pela crítica. Nem importa saber a tabuada. A verdade é que basta lembrarmo-nos de fazer contas de somar.

O livro foi Book of the Year, do Financial Times. E depois admirem-se de haver quem, para orientação nos seus investimentos, prefira ler horóscopos.

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