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rss  Vol. XV - Nº 239         Montreal, QC, Canadá - sábado, 27 de Fevereiro de 2021
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Editorial

Eleições à vista

Por Carlos de Jesus

Uma sondagem publicada no mês passado pelo jornal Le Devoir, deu-nos a saber que 46% dos quebequenses não querem eleições em 2011. Na mesma ocasião, 47% dos sondados pensam que o chefe conservador, Stephen Harper, à frente dum governo minoritário, vai ser re-eleito nas próximas eleições, e que, desta vez, vai ter uma maioria no Parlamento.

Esta falta de entusiasmo do eleitorado, deve explicar porque é que o chefe do Bloc Québécois, Gilles Duceppe, no final do Conselho Geral do Partido em Saint-Hyacinthe, da semana passada - onde foi confirmado como chefe absoluto com uma taxa de aprovação, à lá soviétique, de 95,3% - não tenha insistido na sua intenção de querer derrubar o governo sob a ameaça de chumbar o próximo orçamento federal caso este não inclua os 5 mil milhões de dólares que os bloquistas dizem ser a dívida do Federal para com o Quebeque. Como não quer assumir o odioso de ser ele a provocar as eleições e assim fazer com que os Conservadores venham a ser re-eleitos, Gilles Duceppe limita-se a declarar que são os Conservadores que estão a preparar a máquina de guerra eleitoral para este ano.

Efetivamente tudo parece indicar que estamos num ano de eleições federais. A publicidade viral, no YouTube, dos Conservadores contra os Liberais e vice-versa é um prenúncio. Como estas despesas não são contabilizadas para efeitos das campanhas eleitorais, é uma boa forma de preparar o terreno para a contenda que se adivinha.

Com um governo minoritário eleito em 2006 e re-eleito minoritariamente ainda em 2008, o governo conservador de Stephen Harper tem-se mantido no poder nestes últimos cinco anos devido ao abandono da política federal por parte duma grande maioria dos quebequenses, que votam no Federal como os portugueses nas Europeias, isto é, apáticos, como se o governo central fosse um governo estrangeiro que pouco ou nada lhes diz respeito. No entanto, como todos bem sabemos, o governo de Bruxelas está longe de se poder comparar com o de Otava. Enquanto o primeiro está longe de ser um governo confederativo, no segundo caso, os quebequenses dão a imagem de se comportarem como se a federação canadiana já não existisse.

Esta é uma situação malsã. A vários títulos. Primeiro, do ponto de vista da própria confederação, leia-se, do Canadá inglês, que não querendo, como o tentou infrutífera e suicidariamente Brian Mulroney, resolver a questão constitucional do Quebeque, se comporta como a avestruz que põe a cabeça debaixo da areia à espera que a tempestade passe. Enquanto esta matéria estiver em suspenso, enquanto o Quebeque não assinar a Constituição canadiana, "há algo de podre no reino da Dinamarca" - como diria Hamlet.

Em segundo lugar, pela posição do eleitorado do Bloc Québécois, que vota como um estraga festas, como quem diz, não me querem reconhecer na minha especificidade, também não adiro aos partidos federais. Para eles, o Bloc faz bem o que o seu nome indica. Bloquear a federação. O que não é bem verdade, porque o Bloc, mesmo involuntariamente, tem feito bastante pelo regime federativo. Enquanto o Bloc obtém as grandes maiorias eleitorais que sabemos, os nacionalistas sentem-se protegidos do papão federal e baixam a guarda.

Em terceiro lugar, o nacionalismo quebequenses, que se define cada vez mais por oposição ao Canadá do que como afirmação de si próprio. Mesmo os líderes do Partido Liberal, federalista, assumem cada vez mais as posições de confrontação com Otava, como se neste terreno quisessem rivalizar como PQ. O federalismo tem falta de defensores credíveis por estas bandas.

Esta falta de vontade popular do Canadá inglês para resolver a questão constitucional, e a falta de liderança nacional para fazer face ao problema, só vai poder ser de novo posta em causa quando o Partido Quebequense voltar a assumir o governo da província. Aliás, o cansaço nas fileiras liberais do Quebeque é de tal modo evidente que todas as sondagens apontam para uma vitória do partido de Madame Pauline Marois, nas próximas eleições provinciais. E, como ela afirmou ainda recentemente, sob a sua liderança, o governo do Quebeque vai deitar mão a tudo quanto lhe calhe a jeito para promover a independência do Quebeque e partir com um novo referendo sobre a questão.

Entretanto, como os Conservadores, graças aos êxitos eleitorais das últimas parciais do Ontário, parecem confiantes em poder obter uma maioria, sem o apoio do Quebeque, é natural que se sinta por sua vez mais ostracizado ao nível federal o que só servirá para reavivar a chama nacionalista e confirmar a próxima vitória do PQ.

É este o guião mais provável para onde nos encaminhamos. Eleições federais para este ano, sem qualquer referência à questão constitucional e provável re-eleição de Stephen Harper. Eleições provinciais para 2013 no Quebeque, com uma forte componente referendária durante a campanha e provável vitória de Mme. Marois, que nos levará a nova efervescência à volta dum novo referendo.

Em seguida vamos ver o despertar do Canadá inglês para a questão nacional ou vamos assistir a um cansaço do ROC (Rest Of Canada) para quem a separação do Quebeque já não aquenta nem arrefenta? Provavelmente só vão acordar nas vésperas do terceiro referendo, com outra gigantesca parada de love-in, como em 1995.

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