logo
rss  Vol. XV - Nº 239         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 01 de Março de 2021
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowArquivos arrowContacto arrowÚltima hora arrowClima

Brasil e Esse Jeitinho Manso que é só Seu

Por Vitália Rodrigues

Quem visita Portugal ou o Brasil, quem estuda esses dois países ou quem desfruta das suas pujantes literaturas, dá de caras com uma peculiar forma de pensar a vida e de a viver. Uma espécie de Brazilian (ou Portugal) Way of Life, a que muitos batizaram de desenrascanço em Portugal e de jeitinho no Brasil. 

brasil e o jeitinho 1

Recentemente um embaixador inglês em Lisboa pediu aos portugueses, que por mais normas da CE que lhe caiam em cima, que não esquecessem o seu peculiar espírito desenrascado. E o jeitinho brasileiro é o filho mais velho do desenrascanço português e irmão do leve-leve são-tomense, do jeito angolano e do kumfabissa moçambicano? Ou será que o jeitinho não é fruto do jeito africano de fazer as coisas, que muito uso teve na reação à violência colonial? Não teriam sido os escravos levados para o Brasil, servindo a capoeira de ilustração a esta premissa, a inventá-lo? E o mito dos brandos costumes, é consequência ou causa do desenrascanço português ou do jeitinho brasileiro? Uma dissimulação da violência latente no sentido de contorná-la, de representá-la de forma elegante e alegre?

Numa pesquisa que visava justamente saber como a violência e a expressão política do sofrimento se processavam nos países da América Latina, André Corten e Vanessa Molina puseram-se à estrada e, por meio de entrevistas e de inquéritos de resposta aberta, analisaram qualitativamente a forma como cada país, cada povo, representava a violência e o sofrimento de que eram vítimas. Os resultados da pesquisa encontram-se no livro Images Incadescentes. Amérique latine: violence et expression politique de la souffrance. Depois, organizaram uma mesa redonda e pediram a uma série de individualidades que comentassem um capítulo do seu livro. Pediram ao professor de Estudos Lusófonos da Universidade de Montreal que fizesse uma leitura analítico interpretativa do capítulo 3, Brésil: o Jeitinho.

No capítulo em análise pode ver-se como os dois investigadores apanharam o âmago dessa instituição social 

brasil e o jeitinho 2

que é o jeitinho brasileiro e, tal Ovo de Colombo, disseram o que é evidente, mas que ninguém havia dito antes, pelo menos desta maneira: é a derrocada e, no entanto, há sempre uma forma de preservar a alegria. E mais adiante: - Lutamos contra a natureza mas crê-mo-la boa. Vivemos rodeados de pistoleiros, mas acreditamos que na sua condição o homem não é um ser mau. Não, não se trata aqui de romantismo, mas da história do verga mas não quebra. Dito de outra forma é a história do jeitinho. Encontramos sempre um meio de nos safarmos. A manha segue a par com o riso. Da mesma forma com que encara a superioridade do sério assim a manha o torna a sua razão de ser. Deste modo a astúcia faz com que a verdade seja sempre provisória e frágil. Proclama-se a ordem e o progresso e tem-se fé no desenrascanço que se vive, no entanto, como estando intrinsecamente misturado com a infelicidade e a morte. Luís Aguilar explorou esta faca de dois gumes que é o jeitinho brasileiro e que a própria adoção do diminutivo abarca. Para o melhor ou para o pior, o jeitinho não conduz à revolução nem à mudança abrupta, ele apenas mantém status quo. A história do Brasil, do achamento até aos nossos dias, sempre se pautou pela manha, pela astúcia, pelo arranjinho para contornar a violência e a chatice. E isto em contra ciclo com tudo o que se passou no resto da América Latina e que na mesa-redonda a que nos referimos se expôs. A 7 de setembro de 1822, aproveitando a embalagem do tufão que marcou as passagens da Idade Moderna para a Idade Contemporânea e do Capitalismo Comercial para o Industrial que assolaram todo o Ocidente, D. Pedro que viria a ser o IV de Portugal tornava-se no primeiro imperador do Brasil e gritava bem alto a independência nas margens do riacho Ipiranga, perto de São Paulo: É tempo... Estamos separados de Portugal. E viria a ser simultaneamente rei de Portugal e imperador do Brasil. Querem melhor exemplo do uso do jeitinho desenrascado que este ato de esquizofrenia política, representa?, referiu Luís Aguilar, dando a conhecer, por fim, que os ingleses consideram que o desenrascanço é a palavra que mais falta faz ao léxico anglófono, num rol de outras nove que se lha seguem, na perspetiva dos sociolinguistas que formularam esta teoria. Por outro lado é de notar que muitas escolas de formação de Recursos Humanos incluem na sua prática as características que identificaram no jeitinho brasileiro ou no desenrascanço português: capacidade de reagir criativamente no menor espaço de tempo a situações problemáticas em mutação permanente, mantendo a alegria e a boa disposição permanentemente.

O tempo no resto do mundo

Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2021