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rss  Vol. XV - Nº 239         Montreal, QC, Canadá - sábado, 27 de Fevereiro de 2021
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Alexandra Mendes, a nossa deputada

«Magoou-me a indiferença»

Inês Faro

Entrevista de Inês Faro

Em 1978, no primeiro inverno a caminho da escola, Alexandra Mendes, então com 13 anos, chorou e desejou voltar para o calor português. Foi a primeira e última vez. Passados 32 anos, a primeira deputada federal luso-canadiana orgulha-se das suas origens portuguesas mas continua a maravilhar-se, como no primeiro dia, com as possibilidades que o seu país, Canadá, oferece.

LusoPresse (LP): Quais foram as maiores dificuldades que enfrentou quando chegou ao Canadá?

alexandra mendes

Alexandra Mendes (AM): As línguas nunca foram um entrave à minha integração - estudei num colégio de freiras irlandesas em Lisboa e a minha mãe, que tinha vivido no Congo Belga, ensinou-me as bases do francês. Notei uma grande diferença entre os dois países, por exemplo, pela proximidade entre alunos e professores, o tratamento pelo primeiro nome versus o "Sôtor" português. Ainda hoje tenho muita dificuldade em tratar as pessoas por tu. Outra característica da América do Norte a que não me habituei foi o desapego familiar, ao contrário da noção de família alargada à portuguesa.

LP: Como é aconteceu o seu envolvimento na política canadiana?

AM: Trabalhei quinze anos - cinco dos quais como diretora-geral, num organismo de acolhimento de imigrantes em Brossard. Depois decidi que precisava de novos desafios e fui convidada para ser assessora do deputado federal na altura [Jacques Saada, Partido Liberal]. Trabalhei com ele quase seis anos. Em 2006 perdeu as eleições e decidiu que não se ia recandidatar. Decidi lançar-me. Tinha tido a sorte de ter lidado de perto com o que era o trabalho de um deputado.

LP: O que significou para si ser a primeira mulher luso-canadiana no Parlamento canadiano?

AM: Pessoalmente foi uma grande vitória, mas magoou-me o desinteresse da comunidade portuguesa.

LP: Em que medida?

AM: À excepção do reconhecimento que tive por parte das entidades oficiais [Consulado e Embaixada], a minha eleição não teve qualquer relevo ao nível da comunidade. Não deram importância aquilo que tinha sido uma batalha, num meio em que não foi a comunidade portuguesa que me elegeu. Não foi por ser eu, mais foi por ter conseguido demonstrar que nós portugueses estamos efectivamente integrados e conseguimos aceder aos mecanismos democráticos do Canadá. O mesmo se passou em Portugal, quando, em 2009, o Mário Silva e eu fomos recebidos pelo Presidente da Assembleia da República. Não houve nenhum interesse por parte dos órgãos de comunicação. Magoou-me a indiferença. A vitória para mim significou que nós portugueses somos mais do que o bom carpinteiro ou a boa mulher-a-dias.

LP: Que balanço faz do seu trabalho como deputada por Brossard-La Prairie desde 2008?

AM: Muito positivo. Tive sorte porque conhecia extremamente bem a circunscrição, o que me ajudou a decidir qual poderia ser a melhor maneira de satisfazer os cidadãos. Tenho uma equipa fabulosa que se dedica a 100% a todos os cidadãos; as portas estão sempre abertas para eles. Uma das minhas prioridades foi cumprida a 31 de Janeiro: abrir um serviço de passaportes na margem sul! [até então não existia nenhum entre Montreal e Sherbrooke].

LP: A Ponte Champlain também tem sido um dos seus campos de batalha...

AM: Sim, sem dúvida. Está longe de haver um consenso sobre como proceder. Para mim, a solução é uma nova ponte. É importante lembrar que esta é a ponte mais usada no Canadá (6 milhões de veículos/ano) e não podemos ficar sem alternativas se ela fechar.

LP: Foi recentemente reeleita como presidente do Grupo de amizade parlamentar Canadá-Portugal. O que é que se pretende com este grupo?

AM: Para já aumentámos o grupo de 12 para 22 membros e estamos a contar que mais três se juntem a nós, para termos estatuto de grupo oficial. Neste momento, o objetivo é fazer uma viagem dos membros do grupo a Portugal, por forma a permitir um conhecimento mais próximo do que é a realidade portuguesa e de como podemos desenvolver relações bilaterais sem estar sempre de volta da União Europeia.

LP: Já a pensar nas próximas eleições, quais são as suas expectativas?

AM: Sou candidata oficial e estou confiante. Adoro o que faço, é uma grande satisfação quando podemos responder aos problemas dos constituintes da nossa circunscrição. A Ponte Champlain será uma prioridade, assim como contribuir para o desenvolvimento socioeconómico da circunscrição e continuar a proteger os cidadãos.

LP: Que mensagem gostava de deixar aos nossos leitores?

AM: Que se interessem pela política canadiana. Temos um sistema eleitoral que lhes dá voz, por isso é importante que se interessem pela coisa pública, que é fundamental ao que nós somos como sociedade. Os portugueses já provaram que são um povo extraordinariamente rico e que trouxe muito ao Canadá, por isso não tenham vergonha de arriscar, não tenham medo do sucesso!

Saiba mais sobre a deputada federal Alexandra Mendes em:

http://alexandramendes.liberal.ca/default.aspx

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