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rss  Vol. XV - Nº 236         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 04 de Março de 2021
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Palavras e ideias

Por Duarte M. Miranda*

Aqui estamos, chegando ao final de um ano cheio de surpresas; de dúvidas e incertezas; de loucuras e tontices; de desastres e tragédias; de penas e de dores, individuais e colectivas; de medos e apreensões; e tantos, tantos mais factos e acontecimentos que nos assustaram, nos decepcionaram e nos preocuparam. Têm sido tão frequentes, enormes e surpreendentes tantos desses acontecimentos, que de certa forma nos agrediram todo ao longo do ano. A agressão foi várias vezes de tal forma brutal que acabou fechando-nos os olhos, a muitos e muitas de nós, sobre aquilo de bom que também aconteceu à nossa volta, ou de que fomos testemunhas, de perto ou de longe... Acabamos por esquecer as grandes realizações, as enormes conquistas, as imensas obras de gente extraordinária e de pessoas excepcionais que laboram, lutam e até guerreiam para que tenhamos um mundo melhor, em todo o sentido destas palavras.

A esta altura do ano, não faltam a crónicas nos jornais ou em revistas e magazines de todo o tipo dando-nos os seus relatos sobre aquilo que, a seus olhos e entender, terá acontecido de maior importância ou relevância no mundo, no país, por perto e por longe. As histórias são numerosas, e muitas acabam sendo contadas como sussurros e outras como estórias repletas de fantasia ou de rumores. Eu tinha-me imaginado preenchendo esta minha crónica de fim de ano com uma litania de factos e assuntos que, a meu ver, mereceriam que nós as tivéssemos em mente ou as relembrássemos, se por acaso as tivéssemos esquecido. Tinha preparado a minha lista, ponto por ponto, assunto abaixo de assunto. De repente, conclui que não seria a minha missão tentar criar aqui aquilo que outros farão, sem dúvida, melhor do que eu. Prefiro, por tanto, limitar-me a compartilhar com os leitores apenas alguns comentários e impressões sobre um pequeno número de assuntos e acontecimentos do nosso dia-a-dia.

A politiquice provincial

Em primeiro lugar, já que a política alimenta muitas de nossas opiniões, preocupações e, para alguns, até esperanças e expectativas, queria dizer-lhes o quanto triste eu achei muitos dos capítulos escritos ao longo dos últimos meses pelos nossos representantes eleitos na Assembleia Nacional do Quebeque. Bom, esta minha frase está muito comprida mas, a mim parece-me estar gramaticalmente e sintacticamente correcta ou, senão, pelo menos aceitável. Afinal, a minha pluma não tem a mesma destreza nem a mesma virtuosidade que a do meu conterrâneo e ex-colega, o grande escritor e contador de histórias e estórias, o Onésimo Teotónio Almeida. Se por acaso esta minha longa frase os deixou confusos, será sem dúvida porque estou tentando relatar o que foi também uma sessão política de grande confusão lá em Quebeque. Triste, triste, tudo aquilo que nós, eleitores, cidadãos que não temos tempo para largar os nossos afazeres e nossas responsabilidades quotidianas para chamar à atenção aqueles e aquelas que elegemos como guardiões de nossos interesses colectivos e de nossa busca de prosperidade, de paz e de serenidade. Mas não! Apanham-nos distraídos, e é um tal de montarem peças teatrais que nada têm a ver com aquilo para que foram eleitos e para que são pagos. Julgam-se os únicos actores e, ao mesmo tempo, os únicos espectadores. Seria bom que nós, os verdadeiros decisores, os chamemos à ordem antes que acabem fazendo mais estragos do que criação de riqueza colectiva. O mundo está tentando repor-se das crises após crises que nos vêm assustando e assolando desde já há anos, enquanto nós, por aqui, encontramo-nos diante da escolha entre um pecadilho e outro; entre um inquérito de polícia e uma comissão parlamentar; entre uma mísera trafulhice envolvendo algumas centenas de dólares e os milhões envolvidos em algum negócio vagabundo. Basta! É tempo que, de maneira responsável mas firme, mandemos o nosso recado a todos e todas os que elegemos: estamos de olhos neles e nelas, vamos responsabilizá-los se por acaso dão mais cabo ainda do nosso bem-estar e da nossa prosperidade colectiva.

Ia também comentar sobre o que se vem passando em Otava, mas parece-me que por lá as coisas estão, pelo menos, decorrendo de forma mais civilizada. Mesmo se uns e outros de entre nós temos preferências diferentes sobre quem preferiríamos que governasse o país, o estatuto de governo minoritário que lá temos, combinado com as fraquezas inerentes aos partidos da oposição, servem-nos como guardiões razoáveis dos nossos interesses colectivos e nacionais. Sem dúvida que as coisas vão tomar outro rumo dentro de pouco, mas não é, por enquanto, hora para especulações da nossa parte a este respeito.

Portugal não está melhor...

E Portugal? A querida terra-mãe! Alguns dizem com toda a convicção que não é de nossa conta, nós que estamos fora de lá, o que por lá se passa. Não vejo as coisas bem assim. Afinal, são nossos pais, nossos irmãos e outros familiares que por lá andam, sofrendo as enormes consequências das fraquezas dos políticos portugueses, da sua falta de visão e em muitos casos, ao que tudo indica, de idoneidade. Não podemos ficar nos estrados olhando sem reagir. O país está sem dúvida atravessando uma das piores fases da sua história, mas acredito que mais sofrimento, mais preocupação, mais falta vêm por aí fora a largos passos. Portugal está sem um único recurso que lhe permita tomar uma liderança em qualquer área que seja no mundo, de maneira suficientemente importante para reverter o estado de dificuldades e de miséria que lá se está criando. As contribuições ao IRS (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares) estão, sem dúvida, caindo de forma constante e firme, levando o governo ao ponto de não ter os recursos necessários para responder a algumas das necessidades mais básicas das pessoas, particularmente as mais necessitadas. A ajuda – o socorro! – virá, sem dúvida, a certa altura, de fora. Mas a que custo? Quanto da soberania do país e do orgulho e do amor-próprio dos portugueses deverão ser entregues em contrapartida? Sinto-me tão preocupado com o que por lá vejo que nem acho a forma de ser crítico. Para aqueles de nós que ainda nos alimentamos de fé, é hora de pedir-Lhe que atenda aos nossos e que lhes permita de passar ao lado da miséria sem ter que a carregar, nem mesmo um pouco. Algumas regiões do país sofrerão sem dúvida mais do que outras, mas todos o Portugueses correm o risco de ter de amargar tanto com as consequências da crise económica que continua a prevalecer na União Europeia, como com as consequências dos erros e da falta de boa governança de que fizeram prova os governos portugueses das recentes décadas.

Mais mal do que bem...

Também temos sido confrontados com o escândalo do WikiLeaks. Quem diria que um dia o mundo inteiro acompanharia um romance de tal envergadura e com tais consequências. Devo admitir que inicialmente, nos primeiros balbucios de que tomamos conhecimento, eu fui daqueles que achavam que, afinal, o mundo estava precisando desse tipo de vazamento de informação secreta. Mudei de ideia! Hoje creio que o Senhor Julian Assange ultrapassou o limite do serviço a oferecer ao mundo, e que ele e seus comparsas estão causando mais mal do que bem para a situação mundial e o nosso bem-estar e segurança. Aceito que esses vazamentos são a prova de que algo está errado na cabeça de alguns de nossos dirigentes mundiais, mas é necessário encontrar uma forma de denunciar tais erros, sem colocar em risco a paz mundial. Parece-me que, por causa da irresponsabilidade de um militar em mal de vingança pessoal, e devido ao oportunismo de um militante, quiçá, neurótico, estamos colocando os alicerces para um mundo ainda mais difícil e complicado para as gerações que por aí vêm. Quanto ao Senhor Assange, duvido que as razões da sua prisão sejam totalmente verídicas. Se o têm que perseguir, que o façam pelas consequências dos vazamentos do WikiLeaks e não pelos seus vazamentos pessoais por falta do uso de preservativos...

Vale a pena

No início desta crónica, eu fiz uma referência ao facto de que «Acabamos por esquecer as grandes realizações, as enormes conquistas, as imensas obras de gente extraordinária e de pessoas excepcionais...» Há dias deparei-me nas páginas do Facebook da minha filha e do meu filho com uma referência a um vídeo que eles lá tinham colocado: «CNN Hero Narayanan Krishnan» (www.youtube.com Assisti ao vídeo várias vezes. Chorei! É a história de um homem extraordinário e excepcional que no seu país, a Índia, faz um trabalho para aliviar o sofrimento dos outros de uma forma, parece-me, que poucos conseguem alcançar. A meu ver, esse vídeo coloca-nos perante um «Santo» em vida. Se pudesse, enviaria um pedido de canonização ao Vaticano. Tentem ver o vídeo, vale a pena.

Não tolero!

Caí-me nas mãos uma crónica intitulada «Esclarecendo», escrita pelo Senhor Raul Mesquita na última edição do A Voz de Portugal. Sem dúvida escrita a título de serviço comunitário, a dita crónica refere-se a um caso que me diz pessoalmente respeito. Por isso permito-me comentá-la. O Senhor Mesquita faz referência ao facto de que «alguém lhe chamou a atenção para o seu caso pessoal» relativamente à distribuição (ou falta dela, acrescento eu) dos estornos da Caixa Portuguesa. Esse «alguém» fui eu! Induz-nos o tal apontamento a entender que, não, não senhor, a verdade não é aquela que o tal «alguém» lhe teria contado, e assunto que, segundo o Senhor Raul Mesquita, estaria dando as voltas pela comunidade. Ah, bom! Então, ou há outras pessoas que sentiriam o mesmo ressentimento que eu teria confiado ao Senhor Mesquita, ou alguém andou por aí espalhando boatos e suposições a meu respeito. Não tolero de forma alguma que um assunto tão pessoal quanto esse faça o objecto de tratamento em qualquer jornal comunitário que seja. Não quero nem imaginar as razões que terão levado o Senhor Mesquita a propor-se para «montar» uma matéria a esse respeito, seis meses depois que eu lhe tenha feito a minha confidência. Deixo-lhe no entanto o recado que em momento nenhum o relato que eu lhe teria feito tivesse o fundo maquiavélico que ele parece supor. Se de facto eu tenho uma divergência de opinião com a Caixa Portuguesa, não faço qualquer outra suposição também, senão essa.

A porção do apontamento publicado no A Voz, relativamente a certas características dos depósitos a prazo da Caixa, refere-se de toda a evidência ao meu caso, pois foi um tal depósito a prazo que me levou à tal divergência com a Caixa. Por um lado, as análises feitas e as explicações que tentaram oferecer ao leitor são, no mínimo simplistas, mas mais provavelmente ainda sem pés nem cabeça. Cabe-me chamar a atenção aos dois protagonistas de quem resultou a dita matéria de que o artigo 106 da Lei sobre as cooperativas de serviços financeiros proíbe aos dirigentes de uma cooperativa (uma caixa) de comunicarem a quem quer que seja qualquer informação sobre qualquer de seus membros. Obviamente que o meu nome nunca terá sido mencionado pelo entrevistador ou pela entrevistada, até prova do contrário...

Por enquanto, eu vou deixar que durmam sossegados os fantasmas. No entanto aprendi uma lição importante que compartilho aqui com os nossos leitores: nunca se deve depositar o seu dinheiro lá onde o juro que lhe pagam seja um «juro virtual». Aprendi também todo o significado do pensamento que nos foi deixado pelo Francês Blaise Pascal: «Poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse aquilo que o amigo diz de si nas suas costas». Bem me preveniram! Há dias em que é melhor ficar em casa e não sair à rua. Enfim, quando se precisa de todos os seus dedos das mãos para fazer contas, mais vale não se estar metendo os pés pelas mãos com as contas dos outros. Espero que tenha conseguido esclarecer o «esclarecido».

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá.

Opinião
Aqui estamos, chegando ao final de um ano cheio de surpresas; de dúvidas e incertezas; de loucuras e tontices; de desastres e tragédias; de penas e de dores, individuais e colectivas; de medos e apreensões; e tantos, tantos mais factos e acontecimentos que nos assustaram, nos decepcionaram e nos preocuparam. Têm sido tão frequentes, enormes e surpreendentes tantos desses acontecimentos, que de certa forma nos agrediram todo ao longo do ano. A agressão foi várias vezes de tal forma brutal que acabou fechando-nos os olhos, a muitos e muitas de nós, sobre aquilo de bom que também aconteceu à nossa volta, ou de que fomos testemunhas, de perto ou de longe... Acabamos por esquecer as grandes realizações, as enormes conquistas, as imensas obras de gente extraordinária e de pessoas excepcionais que laboram, lutam e até guerreiam para que tenhamos um mundo melhor, em todo o sentido destas palavras.
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