logo
rss  Vol. XV - Nº 236         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 04 de Março de 2021
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContacto arrowÚltima hora arrowClima
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Em Santa Cruz

Discutida a pobreza na comunidade

Norberto Aguiar

Por Norberto Aguiar

No âmbito do Ano Internacional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, realizou-se no passado dia 4 de dezembro, no Centro Santa Cruz, uma reunião comunitária aberta a todos os interessados naquele tema e que teve o cunho do CASCM (Centro de Ação Sócio-Comunitária de Montreal), em colaboração com o Consulado-geral de Portugal.

Para assunto tão importante, em Santa Cruz não estiveram sequer 20 pessoas, a contar com as organizadoras, o que foi deveras desolador. A menos que não haja pobres e excluídos na nossa comunidade...

Foram conferencistas Adélia Ferreira, uma credenciada advogada que domina perfeitamente o dossiê, visto parte do trabalho que desenvolve estar ligado ao Direito Familiar, e Gina Carvalho, assistente social há vários anos, com experiência até extracomunitária. Como animadora esteve Valentina Barbosa, especialista no domínio social e peça importante daquele centro.

Na introdução, Valentina Barbosa resumiu, estatísticas em mão, o panorama quebequense e canadiano da pobreza, a começar pelo envelhecimento da população, nitidamente o ponto mais fraco da sociedade. Envelhecimento, cifrado em 12%, e pessoas sós, 26%, fazem destes dois grupos os de maior risco de caírem na pobreza. E com pensões de 16 mil dólares anuais para uma pessoa só e de 32 mil para um agregado de dois adultos e duas crianças, a verdade é que a miséria em vez de decrescer numa sociedade dita de rica e evoluída, não para de aumentar. Neste momento, de resto, há mais de um milhão de pobres no Quebeque e cinco milhões no Canadá.

O pior é que este panorama, negro, não tem maneira como parar, a menos que se enverede pelo que se faz nalguns países da Europa, Portugal incluído, onde se pratica o subsídio do Rendimento Mínimo Garantido. Caso contrário, os pobres vão continuar a ser mais podres, a julgar pelos constantes aumentos das rendas de casa, que se tornam incompatíveis para a camada mais frágil da população.

Um novo fluxo de pobreza, segundo as conferencistas, são as famílias monoparentais de origem imigrante, de países da Ásia do Sul que, depois de estarem no Canadá, recusam maridos violentos e por isso aparecem os divórcios, que quase sempre deixam os seus elementos, principalmente os femininos, sem recursos suficientes para levarem uma vida digna. E assim aparecem os preconceitos. Uma das soluções é a procura dos Bancos Alimentares...

E de Comunidade Portuguesa como estamos?

Há portugueses a comer arroz com atum vários dias por mês, garante uma das especialistas. E quando, no decorrer do debate se contesta, de alguma forma, que a Comunidade Portuguesa não tem miséria, as mesmas especialistas avançam com o argumento de que há idosos que vivem mal, por não terem recursos suficientes para pagarem a renda de casa, que no Plateau, o seu habitat, é elevadíssima. «Como é que um idoso, sem família próxima, pode viver com 7 mil dólares por ano?», perguntam da mesa. E logo a seguir. «Desculpem lá, mas digam-me como é que se pode viver bem hoje em dia quando ainda há na nossa comunidade pessoas a ganhar 9,00$ à hora?» É por isso que «há cada vez mais jovens endividados na comunidade, o que, de certa maneira, lhes hipoteca o futuro...». E aqui é que vem à baila a pouca escolarização dos jovens da nossa comunidade. «Mal preparados, o futuro não é certamente risonho», argumenta, com razão, alguém durante o debate.

Outras razões apontadas para se cair na miséria, são o stresse e a depressão, que muitas vezes são causados ou pela falta de trabalho, ou pelas relações interpessoais de que já falamos. Com isto veem os problemas com os filhos. «Já alguém ouviu falar em incesto na Comunidade?» Certamente que é mais um tabu nosso... Mas há de tudo. O que é preciso é haver abertura para todos esses males. Abrindo-nos a quem tem necessidades, seja visitando quem está só, seja convidando alguém para tomar um café, são as sugestões das especialistas. Que no entanto sugerem um diálogo nos dois sentidos, sem nunca se dar a ideia de que estamos ali por caridade. E mesmo quando se achar que o (a) nosso (a) interlocutor (a) passa por dificuldades, há que saber lidar com a situação, perguntando o mais sensatamente se a pessoa em questão precisa de ajuda.

Ajuda que, por exemplo, dá a Igreja Santa Cruz todos os anos por esta época. Como também faz a Fundação Santiago, do Dr. Manuel Cardoso, coisas relatadas na sessão de sábado passado. E há mais gente a dar tempo, a doar dinheiro, a oferecer comida a quem precisa. Mas muitos nem dão conta disso.

Apesar da pouca participação, o encontro foi rico de ideias, onde todos tiveram a possibilidade de refletir num assunto que para alguns era até ali desconhecido. Oxalá que dessa reflexão possa surgir soluções que melhorem a vida dos compatriotas em dificuldades.

Comunidade
No âmbito do Ano Internacional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, realizou-se no passado dia 4 de dezembro, no Centro Santa Cruz, uma reunião comunitária aberta a todos os interessados naquele tema e que teve o cunho do CASCM (Centro de Ação Sócio-Comunitária de Montreal), em colaboração com o Consulado-geral de Portugal.
Debate em Santa Cruz.doc
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2021