Pedro Pires em Danse Macabre
Entrevista conduzida por Inês Faro
Filho de pais portugueses, nasceu em 1969 em Nantes, França. Viveu até aos 24 anos na cidade do Quebeque, tendo vindo depois para Montreal para trabalhar na indústria do cinema. Estudou cinema gráfico e aos 26 anos ganhou os prémios Emmy e Gemmini para "Melhores Efeitos Especiais". Actualmente colabora com a nova criação do Cirque du Soleil, Totem. O LusoPresse foi conhecer o realizador de cinema, que ganhou 30 prémios, entre os quais o Jutra com a sua mais recente curta-metragem, Danse Macabre, um filme negro sobre a morte.
LusoPresse (LP) - És filho de pais portugueses. Fala-nos da tua relação com a comunidade portuguesa e com Portugal?
Foto: Julie Perreault
Pedro Pires (PP) - Gosto muito de Portugal. Estive algumas vezes em Coimbra, para a Queima das Fitas. Também fui a Lisboa e Évora. Aqui vou muitas vezes jantar ao Jano's, para o "frango do churrasco". De cinema português conheço o Manoel de Oliveira. Gosto muito da cultura de Portugal, gosto de ir lá, adoro as pessoas, mas aqui estou muito concentrado no meu trabalho na indústria do cinema.
LP - Quando é que surgiu o teu interesse por figuras animadas e efeitos especiais?
PP - Muito cedo. Adorava fazer os meus próprios brinquedos. Estava sempre à procura de materiais para fazer as minhas cabeças de E.T.'s. Adorava construir objetos e figuras que se calhar eram muito caras para uma criança. Depois comecei a fazer moldagens e escultura em plástico. Gostava muito de experimentar coisas diferentes.
LP - Mas foi alguém que despertou esse teu interesse?
PP - Não, foi mesmo muito natural. Os meus pais são psiquiatras - o que não tem nada que ver com a minha área, mas sempre me suportaram. Quando era pequeno ligava à minha mãe para ela me trazer coisas usadas, como plástico, para fazer esculturas. Estava sempre com esse espírito de fazer e refazer.
LP - O que é que te fascina mais na área dos efeitos especiais?
PP - Muitas coisas. Para alguns pode ser explosões e coisas brilhantes. Para outros são coisas mais subtis, como por exemplo dar só uma cor especial ao filme. Eu gosto da vertente de transformar. Podemos modelar, esculpir uma figura e depois criar a magia no filme.
LP - Em relação à tua última curta-metragem, Danse Macabre, o filme que te projectou na cena internacional. Como é que surgiu a ideia de filmar o último destino de um corpo, depois de morto?
PP - A ideia foi-me apresentada por Robert Lapage com um conceito que ele tinha com a bailarina/atriz Anne-Bruce Faulconer. O Robert deu-me a oportunidade de ser o realizador deste filme e de escrever o guião a partir do conceito inicial. Trabalhei com eles alguns meses e depois propus um olhar realista em vez de ser só um filme de dança. Acabou por resultar num misto de filme de dança e filme de Stanley Kubrick, onde o corpo morto se mexe e cai em diferentes posições. Inspiramo-nos em fenómenos naturais para fazer acreditar que aquele corpo se conseguia mexer, de outra forma parecia só uma história de Frankenstein.
LP - Este trabalho mudou a tua posição em relação à morte?
PP - Levantou-me muitas questões, mais do que me deu respostas. Eu queria ver o que faziam ao corpo depois de morte. Fui aos congeladores, às morgues. Mas percebi que é uma arte e as pessoas que fazem este tipo de trabalho são muito precisas e respeitam muito o corpo.
LP - Imaginaste o impacto que este filme ia ter?
Foto: Julie Perreault
PP - Não. Foi muito surpreendente ganhar tantos prémios. Dei o melhor e as pessoas reconheceram. Estou muito contente. Enquanto estava a trabalhar nele estava demasiado envolvido. Esperei dois ou três anos para filmar numa morgue real. A um certo momento estava tão cheio de morte, morgues, sangue e quando falava disso aos meus amigos eles perguntavam-me: "mas quem é que vai gostar de ver este filme?". De repente muita gente gostou. É um filme negro, mas feito com algum respeito pela morte.
LP - Qual foi o prémio mais importante para ti?
PP - Todos os prémios foram importantes, mas o melhor talvez tenha sido o Toronto International Film Festival (TIFF) e o Prix Jutra para "Melhor Curta-Metragem". Aqui ganhei os prémios mais importantes. Em Portugal, ao contrário, nenhum festival aceitou o meu filme...
LP - Fala-nos agora da tua colaboração com a nova produção do Cirque du Soleil, Totem?
PP - São duas horas de projecção durante o filme. É uma marcha virtual que dá a ideia da evolução das espécies. Tive de fazer muita investigação. Estive durante um ano a testar ideias. Também precisava de ter algumas imagens por isso estive a filmar no Hawai, Guatemala (a filmar lava!) e claro, muitas discussões com a equipa (risos).
LP - Em relação ao futuro. O que é que gostarias de fazer?
PP - Gosto do que estou a fazer agora. É muito divertido ganhar prémios, mas temos sempre de fazer mais. Gosto de pegar em histórias e fazê-las minhas. Por agora, estou num sonho!
Para saber mais:
http://www.dansemacabre-film.com