Tempos & Tempos
Se o nosso cérebro funcionasse como eles, não teria sido preciso inventar esses ditadores das horas pois saberíamos sempre a quantas andamos.
Imenso é o meu respeito pelo Manoel de Oliveira criador de imagens mágicas, e todavia as nossas sensibilidades ao tempo estão nos antípodas uma da outra. Ele a ganhar-me, está visto, porque vai aos 100 anos com uma criatividade que eu não tenho nem aos 61 (já a fugirem-me para a conta acima). Mas devo ter nascido a correr porque as pausas sempre me parecem eternidades. Uma vez, num primeiro dia de aulas, eu só engatara a falar havia apenas cinco minutos quando uma aluna, dedo no ar, semblante assustado: (traduzo)
O senhor por favor deixa-me respirar?
Manoel de Oliveira é a personificação da irrequietude mas compraz-se no suspenso quase budista das imagens. No ecrã, entra mesmo no nirvana. Em
timelessness. Desfasamento de ritmos é o que é. De velocidades. E
vive la difference! Tempo cronológico é coisa de relógios. Se o nosso cérebro funcionasse como eles, não teria sido preciso inventar esses ditadores das horas pois saberíamos sempre a quantas andamos. Ora se nunca afinamos pela certa com os ponteiros implacáveis do mostrador dessas maquinetas, também nenhum de nós se acerta pelo relógio dos outros. Bom, havia o exagerado Kant, que a mitosofia nos garante ser por ele que as donas de casa acertavam os seus relógios quando o viam passar para a universidade, porque o filósofo era mais certinho que o relógio da catedral. Quanto ao resto dos mortais, andamos todos desencontrados e a contar o tempo cada um a seu modo.
Um médico prognosticou para o seu doente dois meses de vida. Ao desgraçado, mãos na cabeça, pânico imediato, a súplica saiu-lhe como se a Nossa Senhora de Qualquer Coisa:
Dois meses, doutor? E não me dá mais um tempinho? O médico disse que dependia dele: eliminar as gorduras na dieta, abolir a carne, os açúcares, nada de álcool, absolutamente nenhum exercício de qualquer espécie, incluindo os prazeirosos. E fumo, nem pensar! Água, leite a 1%, um chá e uma torradinha de vez em quando.
Se cumprir à risca, digamos que pode conseguir viver mais uns seis meses.
– Doutor, mas fazer todos esses sacrifícios e ainda assim viver só mais seis meses?
– Meu caro, se seguir esta receita de abstenção total, verá que seis meses lhe vão parecer muuuuuuuuito tempo.
Voltemos entretanto a Manoel de Oliveira. Um dia, aqui na Brown, o Departamento de Arte trouxe o filme
Amor de Perdição do mestre. Quatro horas de projecção, lembram-se? Manoel de Oliveira tinha sido capa no
Cahiers du Cinema e, naqueles anos, só a Bíblia tinha entre fundamentalistas tanto cartel como essa revista entre as gentes das artes. Manoel de Oliveira virou Deus. Para apresentar o filme veio um jovem crítico do Chicago Art Institute. No debate, o apresentador respondia em adoração. O filme era um texto sagrado e ele apenas incarnava a figura do apóstolo que explicava o ter de ser assim de tudo. Experimentei uma pergunta sobre o tempo do filme.
Perfeito – foi a resposta.
Nem mais nem menos um minuto? - ainda tentei.
Perfeito! – insistiu. Fiquei-lhe com o retrato. Eu já tinha visto aquela cena quando Marx fora Deus e depois Althusser e a seguir Barthes e mais tarde Derrida. Para mim ficou ali arrumado o diálogo.
Passaram-se anos. Agora era um Festival de Filme Português co-organizado pelo Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown, de colaboração com o de Modern Media and Culture, de que um dos professores, Michael Silverman, insistia:
Metade dos filmes a exibir terá de ser do grande cineasta. Generosa e democraticamente, declarou-se aberto a qualquer título proveniente da restante maralha de realizadores, mas a escolha dos filmes de Manuel de Oliveira seria com ele. Tratava-se de, à americana,
compromise. Aceitei. Um dos filmes era
O Sapato de Cetim, famosíssimo pelas quase sete horas de duração.
Olha que não vou a esse, Mike! Tem paciência. E duvido que haja algum espectador que aguente até meio. O Mike peremptório:
Ficarei eu, não te preocupes.
Tudo a desenrolar, os filmes em exibição a atraírem espectadores que saíam da sala com opiniões díspares. Sobre Manoel de Oliveira sobretudo. Fascinados com as imagens poéticas, a magia de momentos suspensos no tempo, o mergulho na alma de personagens com ar irreal e eu a ser assediado na lembrança por uma irresistível frase de alguém que disse de um concerto:
Teve magníficos minutos e horríveis meias-horas. Fui ouvindo patrioticamente alegre os elogios dos espectadores e calando-me perante os comentários sobre o lento ritmo ou a ausência de acção, tabu entre americanos para quem o trágico é nada acontecer.
Chegou o dia da exibição do famigerado looooooongo filme. Não fui. Calculei no entanto o tempo e resolvi aparecer no final, lá pela hora sexta, a saudar os heróis resistentes. Sala deserta, filme ainda rolando no ecrã. Rolando é exagero meu, claro. Se rolava, não dava para se notar. Quando se esbateu o escuro da sala e aos poucos começaram a delinear-se os contornos das cadeiras, só dava para enxergar filas vazias. Antes, porém, que a vista se ajustasse em pleno às silhuetas de objectos, um roncar ritmado e algo suave atraiu-me o olhar para a terceira fila da sala, exactamente a meio. Solitária, uma alma ronronava piedosamente, cabeça descaída sobre o ombro.
Aproximei-me curioso e nem foi preciso acercar-me muito. O perfil inclinado era o do Michael. Agitei-lhe levemente o braço e ele acordou esgazeando os olhos como se vindo do outro mundo.
Sotto voce, com alguma pena de lhe interromper o sono, perguntei-lhe:
– Mike! A gostar muito, não?
Providence, Rhode Island (USA)