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Ano  XII - Nº 182 Montreal, 1 de Junho de 2008 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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«Comunidade parece-me um pouco perdida...»

Carta do economista Duarte Miranda ao director do LusoPresse, e que publicamos na íntegra para benefício dos nossos leitores.

Nos anos 1994 e 1995, eu tinha tido a oportunidade de fazer uma série de palestras sobre a questão da "Aldeia Global" e, já nessa época, tinha identificado essa tendência e deplorava uma certa falta de visão e coragem no sentido de estimular uma maior diversificação das nossas exportações. Comentário: Caro Senhor Director, Foi com muito prazer que li o relato da vossa entrevista com o meu querido amigo e ex-colega, Carlos Leitão. Parabéns! Uma bela entrevista e uma matéria de grande interesse. O Carlos é, certamente, um homem de grande classe, tanto como indivíduo como profissionalmente, cuja sabedoria só nos pode beneficiar a todos. Posso testemunhá-lo, pessoalmente. É um facto que a nossa comunidade, contrariamente ao que acontece entre outros grupos que se radicaram aqui como, entre outros, os nossos amigos italianos, gregos, chineses, etc., não se tem, ao longo dos anos, esforçado colectivamente para preservar nossa herança lusitana, nem para promover-nos como um dos grupos "étnicos" que melhor se integraram na comunidade de acolho e na cultura quebequense. Tão pouco somos, ainda hoje, capazes de realçar, com o orgulho que seria de direito, a nossa contribuição ao desenvolvimento socio-económico do Quebeque – que digo! – do Canadá, ao longo das últimas quase sessenta décadas. No que diz respeito ao Quebeque, não esqueçamos que a nossa comunidade já cá, também, tinha raízes, quando do início da "Révolution Tranquille". O meu amigo Carlos Leitão tem toda a razão, somos uma comunidade "... um pouco perdida..." Mas, há razões facilmente identificáveis para explicar a anemia que nos vem, colectivamente, caracterizando. Ao longo dos anos, certas pessoas dentro da nossa comunidade esforçaram-se, de certa forma, para promover entre nós, actividades ou iniciativas que, digamo-las, tentavam beneficiar "os Portugueses" de cá. No entanto, infelizmente, em muitos casos, a vaidade, o elitismo, o oportunismo, a ambição pessoal ou profissional e, até por vezes mesmo, a ganância se entre metiam – e se entre metem ainda hoje – no processo. Ter algo para vender – produto ou serviço – era e ainda é o alicerce e o melhor argumento de muitas dessas "generosas" intervenções a favor da colectividade portuguesa e luso-descendente. Por outro lado, algumas outras pessoas tentaram, e vêm tentando, dinamizar a nossa comunidade, fazendo-o de maneira totalmente altruísta, com o único compromisso de servir. Mas, sempre aparece alguém seja para lhes dar uma rasteira, seja para procrastinar em relação a apoios e a cooperação prometidos. Isso, inútil que o diga, tem o efeito de abrandar, na melhor das hipóteses os esforços de quem não tem nada para vender a não ser a solidariedade. Isto faz-me lembrar uma anedota que me era contada, há poucos dias, por um membro conhecido e activo da nossa comunidade. Supostamente a piada dataria do 17° século: Certo dia na Índia, alguém vê um indiano apanhando caranguejos e colocando-os numa cesta aberta e diz-lhe, "Cuidado, o senhor deveria fechar a sua cesta para que os caranguejos não fujam". E o indiano de responder, "Não precisa, não senhor. Estes caranguejos são portugueses e empurram-se para o fundo da cesta uns aos outros..." Outro ponto interessante e importante levantado pelo Carlos Leitão refere-se à forte dependência da economia do Quebeque no mercado americano para suas exportações. A sabedoria do grande economista, visionário e pragmático, é óbvia. No entanto, eu iria mais longe, e sugeriria que esse mal não é limitado ao Quebeque mas é uma das características da economia canadiana, provavelmente de um oceano ao outro. Nos anos 1994 e 1995, eu tinha tido a oportunidade de fazer uma série de palestras sobre a questão da "Aldeia Global" e, já nessa época, tinha identificado essa tendência e deplorava uma certa falta de visão e coragem no sentido de estimular uma maior diversificação das nossas exportações. O Carlos Leitão veio dizer-nos que, talvez, a falta de visão e de coragem persistiu enquanto o mundo global se despertava e se formava. Há muito trabalho pela frente! Obrigado pela atenção.

Duarte M. Miranda


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