Cadeiras cheias para ver as «Cadeiras»
Está de parabéns o Carrefour Lusophone. Cerca de 200 cadeiras cheias da cave da Igreja de Santa Cruz no passado sábado, dia 28 de Janeiro para assistir à estreia do documentário «Cadeiras» – um magnífico documentário sobre o abandono escolar e a sub-escolarização das comunidades portuguesas de Montreal e de Toronto. Um documentário bem feito, com uma visão analítica e descritiva dum problema que deve preocupar a comunidade.
Após a apresentação feita por Maria José Raposo, usou da palavra Lucília Santos, a nova presidente do Carrefour. Realçou a importância do trabalho realizado por Inês Lopes, Carlos Lopes e Karine da Costa sobre um dos grandes tabus da nossa comunidade. Considerou que o vídeo poderá ser um pretexto para uma conversa necessária entre pais e filhos, uma vez que alertar para o problema não é suficiente.
Seguiu-se a projecção das «Cadeiras». O público foi imediatamente atraído por uma introdução excelentemente montada. Depois de um breve historial da Comunidade, são-nos apresentados os dados estatísticos que demonstram a baixa escolaridade, as dificuldades nos estudos, a elevada taxa de abandono dos nossos jovens. Paralelamente vemos uma excelente montagem de entrevistas feitas com alunos, ex-alunos, jovens com sucesso, pais, professores, empresários, responsáveis de estabelecimentos de educação. São analisados detalhadamente os diferentes motivos que poderão explicar o quadro relativamente angustiante que é descrito – razões clínicas (problemas neurológicos), a falta de recursos profissionais nas escolas, os factores sócio-económicos (a baixa escolaridade dos pais, a falta de enquadramento familiar, etc.). E como é dito e repetido no documentário, não é apenas um factor, mas uma associação de factores que geralmente estão na base destes maus resultados.
Em seguida o documentário analisa as consequências desta situação, designadamente os baixos salários auferidos e o desemprego frequente.
O filme termina apresentando todo um conjunto de recursos à nossa disposição e conselhos para os jovens e para os pais tendo em vista superar este grave problema que coloca a nossa comunidade num posição verdadeiramente indesejável face às outras, mesmo quando comparada com comunidades que têm idêntico problema, caso dos gregos e dos italianos.
De parabéns estão os realizadores deste magnífico documentário didáctico. Souberam entremear mesmo algumas notas de humor num quadro que é relativamente negro. Um senão apenas – consideramos que os 95 minutos que dura a sua projecção são um pouco longos e que se poderia remediar se na montagem não houvesse tanta repetição das mesmas ideias.
No final da projecção seguiu-se um pequeno debate com o público presente. Esperemos que seja apenas o primeiro debate, pois este trabalho visual merece que seja projectado nas diversas associações e escolas da nossa comunidade, pois é um excelente trabalho de sensibilização para um problema que a todos deve preocupar.
Olá, amigos leitores online do LusoPresse! Acabo de ler o artigo do Joaquim Eusébio intitulado "Uma reflexão sobre o abandono escolar". Apesar de já não viver no Canadá, em Montréal, há 10 anos, fiquei surpreendido com o "diagnóstico" descritivo apresentada no documentário fílmico referenciado no artigo. O quadro apresentado é, certamente, fortemente interpelante para vários dos membros da comunidade portuguesa e, também, para as autoridades, as instituições e os agentes do sector educacional e político local. - O que (vão/vamos) fazer, oh amigos da comunidade portuguesa montrealense? - Que estratégia concertada é possível querer e construir? - Que realidade é essa que continua a excluir e a votar ao insucesso escolar parte significativa dos jovens de "origem portuguesa"? O problema é mesmo muito sério, ãh! Numa província como o Québec, com a suposta generosidade tradicional da sua população e os recursos magníficos de que dispõe, quero crer que é perfeitamente possível ousar (re)inventar as aspirações e as cumplicidades necessárias, as parcerias a propor e que importa actualizar, as solidariedades desejadas, as estratégias de comprometimento e os programas específicos de acção e de avaliação que apontem caminhos de REAL INTEGRAÇÃO E SUCESSO ESCOLAR DAS CRIANÇAS E DOS JOVENS DE "ORIGEM PORTUGUESA". Relembro o facto de que existem, há já vários anos, testemunhos e estudos valiosos sobre a comunidade portuguesa montrealense, torontina e outras, sobre a mesma matéria descrita no filme, e que estão publicados há anos. Vários desses documentos estão publicados na forma de livro, em jornais, ou mesmo editados em reportagens televisivas. Identificam - e alguns têm mesmo o tom de denúncia pública - o problema gravíssimo do insucesso escolar dos jovens de origem portuguesa e que é, aliás, como sabemos, recorrentíssimo num gerúndio prolongado há muitos anos... As escolhas também estão identificadas há muito: - Aceitar-se impotentemente a "desgraça" com impotência, com imobilismo e o tradicional "toca a andar"? - ou (re)inventar e ousar caminhos, talvez, ainda só tenuemente frequentados? Ora, a visão, a criatividade, o talento e a arte de tantos dos membros da comunidade portuguesa são essenciais para ajudarem a mudar o que faz falta mudar...! Abraço amigo do Prof. Amílcar Martins, Ph.D. Ciências de Educação, Montréal Departamento de Ciências de Educação Universidade Aberta Lisboa, Portugal Email: amilcarmartins1@gmail.com