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Ano  XI - Nº 151 Montreal, 15 de Dezembro de 2006 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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O Natal está de volta

Ilha do Pico

Por Candeias Leal, Toronto



Vai o tempo passando, entre noites e dias, entre temporais e bonanças, e quando damos por isso estamos de volta na quadra Natalícia. Ora, para mim, já se passaram quase dois anos desde que tive o Natal em casa. O ano passado ele não me procurou: julgo que já estava cansado e não pôde subir a Rua do Alto. Porém, não sei porquê, este ano já o vejo aqui à roda, já sinto o seu calor familiar, já entra nas minhas narinas o odor dos pinheiros com que se fazem, ou faziam, as árvores de Natal.

Contudo, sinto-me um pouco alheada; o Natal que vejo, sinto e cheiro, não está aqui na ilha Montanha, mas sim na cidade de Toronto junto dos meus filhos, e trazê-lo para aqui não será fácil. Porquanto, vou tentar relembrar os Natais em Toronto e, na companhia de minha mãe, fazer com que este seja um pouco como os outros.

Claro que, como os outros não será possível, mas tentarei relembrar alguns e fazer com que este não seja muito triste. Na verdade, na companhia de minha mãe nada será bonito: ela é uma pessoa muito doente e sente-se melhor ao ver tristeza ao seu redor, assim, preciso de muita força de vontade, para trazer a esta casa um pouco dos Natais vividos na companhia dos meus filhos.

Como já contei em alguns escritos, para mim o Natal não é uma festa religiosa, mas sim uma festa de família que, no meu ver, tem muito mais valor. Nada, mas mesmo nada, tem mais valor do que a própria família. O Natal de 2001 foi belo: havia a árvore, os adornos natalícios, as prendas, a toalha vermelha na mesa, as velas, o peru assado no forno (isto por ser a tradição da terra onde nasceram e foram criados os meus filhos), a batata cozida no molho do peru, o puré, a salada, o pão de milho, o bolo de mel, o arroz doce, os camarões, o caranguejo, enfim... mas, principalmente, havia a alegria de estarmos todos juntos.

Aqui, no Alto das Casas, na velha casa, apenas estarei eu e a minha mãe, mas tinha de ser: eles já não são bebés e ela precisa da minha companhia. Estaremos as duas, não haverá prendas, nem árvore, nem peru. Não ouvirei a música natalícia, nem as gargalhadas deles os três juntos. Contudo, vou tentar imaginar toda essa alegria que eles me deram e dizer: a vida é assim. Será que a vida tinha que ser assim mesmo? Claro que não! Havia outros caminhos mais brilhantes para eu percorrer. Mas, para minha mãe, este é o único; onde já não há luz nem esperança, onde as lamentações já tomaram o lugar dos sonhos... Por isso mesmo estarei eu aqui com ela. Sei que não lhe posso dar essa luz que lhe falta, sei que não posso pôr os sonhos no lugar das lamentações mas, pelo menos, não estará só.

Vou fazer uma ceia para nós duas que não será de peru, claro, mas será uma ceia, talvez faça um bolo de mel, vou comprar-lhe uma prenda, mesmo sabendo que não vou ver nela a alegria que via neles ao abrirem a oferta embrulhada no papel colorido. Telefonarei aos meus filhos, vou ouvir as suas gargalhadas, e talvez ao ouvi-las também dê algumas mesmo com as lágrimas correndo, vou «viver» a sua felicidade através da linha telefónica, sentirei comungar com eles um pouco de tudo... E talvez fosse melhor se o Natal não subisse a Rua do Alto!?...


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