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Ano  X - Nº 146 Montreal, 1 de Outubro de 2006 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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Editorial

A Intolerância islâmica

Por Carlos de Jesus

A tolerância, tanto pelos escritos como pela prática, não é uma das virtudes do Islão. Mas, ao ritmo que se seguem os acontecimentos, a intolerância duma grande franja dos seguidores de Maomé, parece exacerbar-se cada vez mais e mais violentamente. No sul do Afeganistão, uma mãe e o filho de 13 anos foram enforcados na frontaria da sua própria casa, ao que parece por terem denunciado os talibãs que ameaçavam de bombardear a escola da aldeia por dar aulas às meninas. Numa aldeia do norte do Paquistão, numa zona tribal fechada aos estrangeiros, os homens foram decapitados e expostos em público por terem colaborado com as autoridades. No Iraque, dezenas de vítimas diárias enchem as morgues de todo o país. No Líbano, os combatentes do Hezbolá, o Partido de Deus, clamam vitória face aos Israelitas, mesmo com o país destruído e exangue. Em Londres, jovens de origem paquistanesa são apreendidos nas vésperas de fazerem explodir 10 aviões de passageiros em pleno voo. Em Toronto, outros jovens islamitas são apanhados a comprar explosivos para fazerem explodir em locais públicos. Umas quantas caricaturas de Maomé num obscuro jornal de Copenhague, provocam manifestações violentas em todo o mundo muçulmano, com assassínios e destruições de igrejas.

No Darfour, meio milhão de refugiados muçulmanos, correm o risco de serem assassinados pelas milícias a soldo do governo árabe do Sudão por razões obscuramente étnicas. O presidente do Irão, Mahmud Ahmadinejad, clama a morte de Israel e dos Cruzados. O número dois de Alcaida, ordena ao Papa e aos cristãos de se converterem ao Islão ou serão todos mortos.

E quando o Papa, num fórum de intelectuais, cita uma fonte histórica, sobre a pertinência da conversão pela força, o mundo muçulmano grita à injustiça, à blasfémia e pede que o Papa apresente desculpas formais a todos os muçulmanos. Porque o Islão é uma religião de paz e amor clamam os dirigentes muçulmanos. E como para que provar que o Papa estava errado, vai de se incendiar as igrejas dos cristãos em terras islamitas, deitar fogo à efígie do Papa e assassinar uma freira septuagenária pelas costas.

Afinal que querem os terroristas islamitas? O fim da guerra no Iraque, o fim da ocupação da Palestina, o fim do conflito do Caxemira? A destruição de Israel? O renascimento do Grande Islão, de Marrocos às Filipinas, passado pelo sul de Portugal, da Espanha, da França e dos Balcãs?

Aos olhos do mundo islamita o diabo é o mundo ocidental e os seus valores. Particularmente no que respeita ao direito à igualdade entre homens e mulheres. Enquanto durou a guerra-fria, as forças em presença justificavam a tirania dos governos ditatoriais em terras de Maomé. Hoje, com uma única super potência a dominar o mundo, a super potência das comunicações instantâneas, da Internet e do telemóvel, os governantes em terras do Islão são obrigados a compor com a franja militante radical para se manterem no poder. É o caso flagrante de Musharraf, o ditador paquistanês que pactua com os americanos e colabora com os talibãs que se atacam aos soldados da Nato que procuram dar uma vida decente aos afegãos.

É esta super potência das telecomunicações que faz deste pequeno mundo onde vivemos, uma aldeia planetária. Uma aldeia, onde todos vemos como vive o vizinho, esteja ele em Montreal, Lisboa, Rabat ou Cabul. Todo o mundo é vizinho de todo o mundo e todo o mundo tem telhados de vidro. E o modo como vive o Ocidente, agora expandido à Rússia, à Índia e à China não agrada aos islamitas.

A liberdade sexual, a igualdade entre os direitos dos homens e das mulheres. O direito ao ensino, à saúde e à protecção na velhice, que embora não sejam direitos totalmente conquistados para lá se caminha, são a herança do humanismo que nos deu a liberdade de expressão, o direito de associação política, sindical ou patronal, o direito de contestar governos e governantes, e mais facilmente o próprio Papa.

O problema não são os cristãos nem o Cristianismo. O problema dos muçulmanos é verem que no Ocidente cada um vive a sua fé como bem a entende sem ter de dar contas ao vizinho e muito menos ao Estado. Para nós é impensável que o Estado interfira com a religião dos cidadãos. Nem sempre foi assim, mas foi assim que as populações do Ocidente se emanciparam e se tornaram mais tolerantes, aceitando que cada um possa seguir a religião que mais lhe agrade. Comparar esta atitude com a Arábia Saudita, por exemplo, onde o viajante à chegada ao aeroporto tem de declarar a sua religião e é um crime declarar-se ateu... vai um mundo de intolerância incompreensível.

Infelizmente o Ocidente começa a acobardar-se com a ameaça islâmica. Ontem foi a Ópera de Berlim que decidiu suspender a peça de Mozart «Idomeno» por recomendação da Polícia que temia as reacções do mundo islâmico. Nesta peça clássica trata-se do levantamento dos espíritos livres contra Deus. Na cena final, um protagonista aparece com um saco contendo das cabeças de Buda, Posídon, Jesus e Maomé. Evidentemente que não há nada a temer dos cristãos nem dos budistas, muito menos dos antigos gregos. Mas para calmar os espíritos intolerantes dos muçulmanos há que fechar o teatro. É verdade que os Judeus também já tentaram silenciar Shakespeare pela imagem negativa que ele deu dos judeus no «Mercador de Veneza», mas os protestos resumiram-se às cartas dos leitores nas páginas dos jornais. Estamos bem longe da intolerância que vai à pilhagem, à violação, ao estupro, ao assassínio e à decapitação dos adversários.

Por este andar, não tardará o dia em que um iluminado, por estas terras, reclame contra a venda da carne de porco. Se a tal se chegar é porque abdicámos demais.

Montreal,Qc, Canadá


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