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Ano  X - Nº 146 Montreal, 1 de Outubro de 2006 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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Domingo é um dia diferente

Tudo isto foi passando, somente a saudade ficou

Por Candeias Leal

Saudade daquela jovem apaixonada, que um dia se sentiu dona do mundo e, mais tarde, um farrapo humano cheia de desilusões. Domingo é um dia diferente para algumas pessoas. Um dia onde há um jantar mais completo de coisas boas para toda a família. Um dia em que alguns vestem as roupas mais finas e vão à missa; outros visitam parentes ou amigos, ou vão ao parque receber o ar fresco da natureza, almoçar ou jantar a um restaurante para recompensar a semana árdua de trabalho. Enfim, viver um pouco. Porém, para certas pessoas é um dia tal como um outro qualquer, onde apenas existe a saudade. Uma saudade que arrocha o peito de quem a sente, ao abrir o livro da sua vivência. Em cada página, marcas amarelecidas pelas lágrimas vertidas em anos passados.

Saudade daquela criança que, impaciente, esperava pelo saquinho de confeitos dados pelos avós, que hoje já não vivem. Da jovem que ajudava sua mãe na lida da casa. Dos pais já idosos, tão longe da vista mas bem perto do coração. Da casa velhinha onde foi criada. Da ceia preparada pela mãe, dos serões à luz da candeia de petróleo. Do toque dos sinos à tardinha na torre da igreja, do pôr-do-sol. Da brisa da noite cheia de luar. Das manhãs frescas e húmidas. Da escola onde aprendera o pouco que sabe, muitas vezes obrigada a frequentá-la por não compreender o seu valor. Será que tudo continua como dantes? Não! Tal como na cidade grande, na aldeia as coisas mudaram... menos a saudade que delas ficou.

Saudade daquela jovem apaixonada, que um dia se sentiu dona do mundo e, mais tarde, um farrapo humano cheia de desilusões. Da mulher-mãe que era feliz quando criava os filhos, quando lhes comprava roupas e os vestia, quando os preparava para a escola, para o banho à noite, e os deitava aconchegando-lhes as cobertas, aguardando a chegada do sono tranquilo; os pequenos-almoços nas malgas do cereal, as corridas e risos nos parques, até mesmo das pequenas brigas entre eles. Saudade de os ver crescer. Da ansiedade que sentia ao vê-los sair de casa, pensando que algo de mal lhes pudesse acontecer... E mais tarde, orgulhosa, ao vê-los tornarem-se adultos, cheios de entusiasmo pela vida e com sabedoria decorrente da oportunidade que tiveram em frequentar boas escolas. Saudade da mulher ou do homem que um dia sonhou com algo maravilhoso. Realizado ou não, apenas foi mais uma página do livro que ficou escrita para mais tarde sentir saudades.

Tudo isto foi passando, somente a saudade ficou.

Toronto, Ont. Canadá


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