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Edição do dia 15 de Maio de 2006

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Crónica

Dias – Crónica

Por Onésimo Almeida

fotografia de Onésimo Almeida Não é difícil chegar e espalhar-me pela ilha a embebedar-me de verde e de mar. Americanissimamente – Tenho uma colecção de «Americana». A última a dar entrada no dossier não poderia de facto ter acontecido em nenhum outro país do mundo e também não necessita de qualquer consideração cultural ou moral. Toma-se a seco.

Uma mulher apanhada em flagrante num supermercado de Massachussetts foi condenada por ter roubado mercadorias no total de $101.49 dólares. Um furto superior a $100 dólares constitui felony (delito maior) e pode dar prisão substancial. A mulher recorreu da sentença e o Tribunal do Condado de Rutland transmutou-lhe a pena para a categoria de misdemeanor (delito menor) aceitando a razão alegada pela ré: o total dos produtos subtraídos fora afinal de $97.37 dólares. Nesse dia algumas das mercadorias estavam em saldo.



Adeus, privado
– Antigamente as conversas e as cartas de amigos eram coisas privadas. Na idade PLT (Pós-Linda Tripp, a espertinha que gravou as conversas da Monica Lewinsky) nunca se sabe se alguém está do outro lado a gravar-nos as conversas telefónicas, se vão remeter para outros as nossas mensagens e-mail, ou mesmo publicar-nos as confidências. Há também os erros por conta própria como esse de um meu conhecido ter enviado por Fax um segredo profissional, e se ter enganado no número. Talvez piores ainda foram os meus dois casos de conversa telefónica gravada em casa de uma terceira pessoa, só porque após uma chamada eu desliguei demasiado rapidamente para marcar outro número logo a seguir, e a maquineta pensou que eu queria apenas fazer uma transferência de telefonema. As duas conversas foram alojar-se nos gravadores de terceiros, felizmente sem consequências drásticas. Enfim. Mas as considerações morais hão-de ficar para outra altura. Aqui contarei a última que à porta me bateu.

Estava eu em Ponta Delgada num congresso sobre Vitorino Nemésio. Ido de Bóston, a viagem até aos Açores é um ápice e não chega para se dormir. Noite em branco, naturalmente, hábito que os anos já calejaram. Não é difícil chegar e espalhar-me pela ilha a embebedar-me de verde e de mar. Mas aterrar imediatamente num auditório e ouvir uma série de comunicações é desafio às pálpebras. Se o congresso dura três dias, e em cada a carga ultrapassa as vinte, o cenário já rasa o exagero. Se ainda por cima os apresentadores abusam do tempo por acharem os seus textos demasiado importantes para os reduzirem aos vinte minutos da praxe, não há estômago cerebral que resista.

Foi por isso que tive de me socorrer de alguns truques como esse velhíssimo de rabiscar uns «leia e passe» da tradição coimbrã, por mim cultivada no Seminário da Angra ainda antes de ler o In Illo Tempore e o Palito Métrico, mas profundamente acicatado mais tarde por essas leituras. Pus-me então a escrever um poema que depois circulou entre amigos. Um jornalista local aproveitou-se dele para apoio aos seus camilianos remoques à organização do congresso. O que era mera brincadeira, aliás tão ao gosto e prática de Nemésio, ficou completamente descontextualizado nas páginas de um jornal diário. E porque derramado está o caldo, aí ficou a reposição do contexto e, já agora, do texto:



Carta a Nemésio no final do terceiro dia da maratona nemesiana de Ponta Delgada



A cultura é muito boa

Mas, por mais que tente pose,

Não aguento tanta loa

A Nemésio...É overdose!



Meu querido Nemésio:

Nem Toda a Noite a Vida disto!

Cheguei ao Limite da (capac) Idade.

Já estou de Casa (e cabeça) Fechada.

Anteontem,

todo tão Voyelle Promise,

sou agora Cavalo (talvez ainda) Encantado,

mas cansado e murcho.

Faz Mau Tempo

no Canal
e no final

deste congresso de Corsário(s)

das ilhas,

e do continente,

e de outros lugares de viagens.

Eu, Comovido a Oeste,

mas estonteado a leste, a norte e a sul,

sem inspiração e aos tombos,

venho de mãos atadas à Varanda de Pilatos

do meu Paço do Milhafre

declarar-me sem mais reserva

de Mistério do dito

e entregar

o meu outrora Bicho Harmonioso.



Terminei assim esta tua Festa Redonda-

Mente cilindrado, feito Sapa

na teia de uma soneca

Açoriana

ou de outro lado qualquer.

Teu muito

(Se Bem Me Lembro!)

Mateus Queimado
desasado,

sem mito,

sem bico

... e caíd

o.

Lá escrevi uma carta ao director do jornal que levou quase uma semana a sair porque o meu fax não chegava inteiro à redacção e não sabiam o meu número de telefone em Providence, (coisa acessível a qualquer curioso mesmo que nunca tenha sonhado fazer jornalismo de investigação). E ficou o poema-brincadeira assim a seco, atirado aos leitores que naturalmente mal conhecem as referências nemesianas do poema além de Mau Tempo no Canal e Se Bem Me Lembro. Queimado fiquei eu, mas não nesse sentido ilhéu (nos Açores, queimado é um milhafre) que Nemésio adoptou para nomear o seu alter-ego. Só me resta dizer publicamente à organização, com menção especial do nemesiano Professor António Machado Pires, que foi mesmo um belo congresso. Além de muito sobre Nemésio, aprendi mais uma vez que, depois de Clinton, a palavra ‘privacidade’, que até há bem pouco tempo nem figurava nos dicionários portugueses, teve em Portugal uma bem efémera existência.

 

Providence, Rhode Island (USA)

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