LusoPresse

1 de Fevereiro de 2006

No «Clube» de Paul Martin na noite do 23 de Janeiro:  
Alegre no exterior, lastimável no interior
 Por Jules Nadeau

Ao chegar ao quartel-general dos liberais, rue Dollard (Lasalle-Émard), eu sei que vamos passar uma noite histórica. Do exterior, apercebemo-nos que várias pessoas estão azafamadas no grande hall iluminado. «Vimos em serviço de reportagem para o LusoPresse!» O encarregado da entrada estampilha o meu crachá grande formato que penduro ao pescoço.

Na imensa sala dos Média, há muito tempo que não via tantos jornalistas sentados em diversas filas agarrados aos seus portáteis. Os reflectores brilham como no cinema. Verificação feita, há mais repórteres na grande sala de dança reconvertida que de militantes ou trabalhadores de eleições.

«Fala português?» Acabo apenas de chegar à sala dos jornalistas que um agente da Gendarmerie Royale à civil (com botoeira oficial) me surpreende. O homem, de bigode inusitado, é corpulento e cortês. O que é que fiz de mal? Problema de identidade? Momentos mais tarde, rapidamente constato que se trata de um polícia de origem portuguesa. «Dos Açores? Sim!» Sou eu que interrogo. «De São Miguel? Sim!» Eles são quatro ou cinco lusocanadianos na GRC em Montreal.

A soirée será muito comprida no clube Paul Martin enquanto se espera pelo seu discurso nocturno de político vencido. Rádio Canadá e o Le Devoir vêem para me entrevistar e ao meu amigo Pierre, mas nós não somos nem militantes nem analistas. Passo a passo, grandes figuras dos longos anos liberais vão aparecendo. Um Marc Lalonde em grande forma aparece com um grande sorriso. A ex-ministra provincial Lise Bacon distribui abraços pelos vários amigos. O senador Francis Fox facilmente se faz açambarcar pelos caméramen para comentar o julgamento final que chegará dentro de momentos. Apresento-lhe o enviado especial do canal France 2. Mesmo a televisão nipónica NHK grava o show.

O grande restaurante italiano de coração vermelho não pode evitar o choque dos desastrosos resultados. Às 22h07, o veterano Bernard Derome anuncia: «Conservador minoritário!» Stephen Harper caminha em direcção à vitória com 124 deputados contra 103 para os liberais de Paul Martin. É o fim duma dinastia de 13 anos. O Bloco Quebequense de Gilles Duceppe contabiliza 51 deputados e o NPD do casal Jack-Olivia Layton acaba com 29.

Curiosamente, por volta das 23h00, a grande sala aquece e os balões vermelhos e brancos dos fiéis liberais dão um ar de alegria ao local. Um leque de VIP forma-se atrás do palco de honra onde está colocado o microfone. Muitos apoiantes de origem indiana, alguns de turbante, assim como os chineses apoiantes do candidato Soeung Tang (Círculo eleitoral Laurier-Ste-Marie) são os mais barulhentos. Quando o chefe Paul Martin entra na sala é quase a histeria, ao ponto de se chegar a perguntar se o primeiro-ministro não acaba de varrer do mapa toda a Oposição como nos gloriosos anos de Pierre Trudeau. Martin sorri como um grande libertador, o que não é o caso, nesta segunda-feira negra.

Paul Martin inicia discretamente com os seus agradecimentos aos voluntários e à sua esposa Sheila. Ele sublinha os altos feitos da sua curta administração. «Nós demos ao Canadá a melhor performance económica da sua história». Os aplausos difundem-se a cada impulso. Os candidatos liberais, na sua maioria derrotados, formam um muro compacto por detrás do chefe e o mais triste do grupo é Stéphane Dion (círculo eleitoral St-Laurent). Lucienne Robillard (Westmount-Ville Marie) apenas sorri. A surpresa inesperada será o anúncio que o chefe Martin abandona a governaria dos liberais. Nesse momento os aplausos de Lasalle-Émard surgem à laia de «bravos». Mas quem sucederá ao deputado eleito há já 17 anos?

No momento de deixarmos discretamente a sala, Jean Lapierre (Outremont: vencedor por menos de 1000 votos) e o seu assessor de imprensa chegam em passo triunfal e saúdam alegremente o meu colega, feliz apesar de acompanhar tantos políticos derrotados ao mesmo tempo. Mas onde estão o astronauta Marc Garneau (derrotado por Meili Faille) e o diplomata Pierre Pettigrew?

Pelo Metro, chego rapidamente ao Club Soda onde os bloquistas festejam os seus candidatos vencedores no âmbito do muito mais popular boulevard la Main. Cheiro a cerveja. Loco Locass. À entrada, os coleccionadores de cartazes apropriam-se alegremente dos da advogada chinesa May Chiu. Eles ainda não sabem que ela fez muito boa figura com os 10 462 boletins de voto contra os 17 374 de Paul Martin. «De qualquer maneira, nós não somos pagos a 150.00$ por dia como voluntários», dizem-me. Gilles Duceppe promete uma «oposição musculada» diante dos portadores da flor-de-lis. No interior do local, todos seguem ainda o futuro de Roger Clavet (Louis-Hébert) que só acabará derrotado muito tarde pela vaga azul da Velha Capital.

Depois, do outro lado da rua, é a chata calma apolítica num restaurante especializado em hots dogs depois da meia-noite; por outro lado, o taxista irá estimular-me os neurónios para o resto da noite com a sua arenga fastidiosa: «O Canadá vai ser ingovernável!» É esse haitiano super politizado que me informa que Pierre Pettigrew (Papineau) se fez «damer le pion» pela bloquista Vivian Barbot, também ela de origem haitiana.

Na calma do living room do meu círculo eleitoral de Honoré-Mercier que continua vermelho (Pablo Rodriguez), tenho dificuldade em desligar a televisão antes das 3 ou4 horas da manhã. Liza Frulla? Derrotada! Desejei encontrar-me em Calgary no meio dos harpentistas, ou mesmo em Toronto, junto dos layotonistas, mas o Canadá é um país muito vasto, agora mais dividido do que nunca, por regiões, para estar em todo o lado ao mesmo tempo, nesta mesma histórica noite.

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