Isabel dos Santos
Acredito nos valores da democracia participativa
Por Lídia RIBEIRO

O Plateau Mont-Royal, constituído por três distritos eleitorais, Jeanne-Mance, Mile-End e Delorimier, é uma das zonas mais típicas da cidade de Montreal, e uma das mais solicitadas, nos últimos anos, pelos vampiros do imobiliário. Jeanne-Mance, onde está localizado o bairro histórico português revela um algo especial que se sente sobretudo através da beleza e diversidade das suas gentes. Não é necessário ser português para entrar na pastelaria da Dona Aurora e pedir um pastel de nata ou para participar nos arraiais que seguem as procissões do Senhor Santo Cristo e de Nossa Senhora do Monte, no adro da Igreja Santa Cruz. Bairrista na alma, é aqui que Isabel dos Santos, se apresenta em Novembro próximo como vereadora municipal.

Detentora, em 1989, dum Mestrado em Teatro pela UQÀM, Université du Québec à Montréal, Isabel dos Santos decide estabelecer-se definitivamente em Montreal. Como artista labutou para integrar-se na nova sociedade. Hoje, com sua participação em vários filmes americanos, as publicidades e a sua interpretação da simpática Fátima Macedo, na série televisiva Providence, podemos dizer que devido à sua força de carácter e determinação, Isabel dos Santos conseguiu criar o seu lugar. Encenadora e autora prolífera, continua a manter laços estreitos com a pátria lusófona, através dos seus textos teatrais como El-Rei Don Sebastião, estreado pelo Teatro Laboratório de Faro, Más caras e Máscaras, apresentado no Centro Cultural, em Macau.

Impulsionadora de vários acontecimentos culturais que tinham como objectivo a difusão alargada da cultura lusófona, Isabel dos Santos sempre demonstrou uma grande liberdade intelectual e uma constante necessidade de encontrar um espaço de intervenção onde pudera ir mais longe, encontrar novos desafios. Assim aconteceu. A mulher de teatro foi chamada mais uma vez a ser porta-voz, mas desta vez, dos cidadãos, como vereadora municipal. Levar as pessoas a reivindicar, a reflectir, a repensar o bairro, a cidade, mas desta vez como actuantes, eis a nova proposta da nossa candidata. Há quatro anos entrevistei a actriz, com desejo de transcendência, desta vez é a mulher política, a combatente. Sempre existe a mesma franqueza e entusiasmo, na sua maneira de abordar as questões.

LP – Isabel, o que foi que favoreceu a sua candidatura?

IS – Eu vivo há 15 anos no Plateau-Mont Royal. As minhas filhas cresceram aqui e foram aqui à escola, eu faço as minhas compras no bairro. Conheço os problemas do Plateau e sempre tive um diálogo aberto com as suas gentes, independentemente das suas origens. Além disso, a minha participação como animadora, nas consultas públicas que tiveram lugar no bairro, no final de 2003, os famosos e estimulantes Serões do Plateau (Les Soirées du Plateau), deu-me muita visibilidade junto dos seus residentes e reforçou os laços que nos uniam. E finalmente, creio que alguns eventos culturais que organizei, como o «Bonjour Montréal, Bom dia», o «Pessoa non stop», o «Souvenirs à venir», ou o «Marear», deram a conhecer o meu profundo empenho em dar uma melhor visibilidade à comunidade portuguesa e fazer reconhecer o seu contributo ao desenvolvimento e riqueza de Montreal.

LP – Para integrar um partido é necessário compartilhar a sua ideologia. Porquê a equipa do maire Tremblay, a UCIM, Union des Citoyens et Citoyennes de Montreal?

IS – Gérald Tremblay é um homem de palavra, preocupado com as reais necessidades dos cidadãos. Não é um catavento que hoje está num partido e amanhã noutro. Geriu de uma forma exímia o complexo processo das fusões/separações da ilha de Montreal. É capaz de trabalhar em grupo e não muda de equipa como quem muda de camisa. É também um homem com sonhos, que deseja tornar Montreal numa cidade competitiva, capaz de gerar empregos e riqueza. Conseguiu recuperar o Campeonato dos Jogos Aquáticos 2005 para Montreal, e levar os governos de Quebeque e de Otava a respeitar de novo esta cidade. Além disso acredito nos valores da democracia participativa da minha equipa.

LP – Em concreto, que significa a democracia participativa para o cidadão?

IS – Significa a possibilidade duma intervenção mais activa e directa no processo democrático. Significa uma grande descentralização e uma maior transparência do poder político.

LP– Onde começa e onde acaba o papel duma conselheira a nível do bairro?

IS – Os conselheiros de bairro representam os cidadãos nas instâncias municipais do bairro, ou seja, no conselho «d’arrondissement». São eles que estão mais perto dos cidadãos e à escuta deles. São eles que irão defender as suas reivindicações junto da Câmara.

LP – Estamos em plena campanha eleitoral. Como conjuga isso ao quotidiano?

IS – Eu vejo os problemas e as questões com que deparo, nesta campanha eleitoral, como um magnífico desafio e uma oportunidade para aumentar os meus conhecimentos, para desenvolver a minha capacidade de comunicação, de estima e atenção pelos outros. Os dias são muito longos e muito cansativos, mas os sinais de confiança que as pessoas me exprimem (e à equipa Gérald Tremblay/Helen Fotopulos) dão-me a força e a alegria para continuar e para tentar ultrapassar-me! Além disso, as minhas filhas e o meu marido ajudam-me imenso.

LP – Como se faz o contacto com as pessoas do bairro?

IS – Como já disse, eu vivo no Plateau. Isso facilita muito o contacto com as pessoas, os grupos comunitários, as escolas. A política municipal é, de uma certa forma, uma política de bem-estar entre vizinhos, de qualidade de vida no dia-a-dia.

LP – A Isabel já começou a bater às portas. Como é acolhida? Já lhe fizeram algumas reivindicações, queixas?

IS – O Plateau é muito cosmopolita. As reivindicações dos indivíduos reflectem a diversidade dos grupos que o habitam. Mas em geral, os cidadãos pedem que se tomem medidas para reduzir e controlar melhor o tráfego, para aumentar os espaços verdes. A comunidade portuguesa pede também que lhe seja dada uma maior e mais digna visibilidade. Aliás, a equipa UCIM já se comprometeu em encontrar soluções para esses problemas. Mas as pessoas que nos fazem críticas sabem também dar-nos os parabéns pelas obras do viaduto Des Pins, pelo embelezamento de inúmeros parques e pelo projecto da cooperativa Marie-Anne.

LP – Isabel, como encara o facto de haver uma candidata portuguesa na oposição, pelo mesmo círculo eleitoral?

IS – Todos sabemos que teria sido melhor que o voto português não fosse dividido porque a comunidade portuguesa chegou ao ponto em que não pode continuar a dar-se ao luxo de ser subrepresentada nas diversas instâncias políticas. São as gerações futuras que sofrirão com isso. Mas vivemos numa democracia e as pessoas têm o direito de se exprimir. Confio que as pessoas saberão escolher segundo a capacidade de cada candidata a defender os interesses da comunidade.

LP – Em tempos de campanha eleitoral, inicia-se muitas vezes o bota-abaixo em relação ao adversário. Que responde à candidata da oposição que afirma que a Isabel é elitista, entre outras coisas?

IS – Sempre tentei não responder às campanhas de lavagem de roupa suja que só servem os interesses daqueles que pretendendo defender os interesses da nossa comunidade apenas defendem os seus. As pessoas que trabalharam comigo e que me conhecem sabem daquilo que sou capaz e do meu empenho.

LP – Em relação à nossa comunidade, quais são as suas prioridades, se for eleita?

IS – Aspiro a que a Câmara integre no seu seio um maior número de pessoas da nossa comunidade. Acho que o contributo que os portugueses deram a esta cidade é muito superior àquilo que a cidade, a província e o país nos dão. Precisamos de mais apoios da Câmara para que a sinalização do bairro português seja feita de modo a dar mais visibilidade aos comerciantes de origem portuguesa, e a atrair os turistas.

LP – Como se fez nos bairros italiano e chinês?

IS – Exactamente. O futuro parque dos Açores que é uma reivindicação de há muitos anos, deve ser um espaço agradável para os residentes, mas conjuntamente um espaço de memória. Não devemos esquecer que os portugueses tiveram um papel importante na reabilitação do Plateau. O actual parque de Portugal poderia ter um papel de maior destaque, e tornar-se um veículo da cultura portuguesa. Precisamos de fomentar novas actividades como a feira do livro, a feira do azulejo, etc.…Seria importante apoiar, de maneira mais eficaz, organismos portugueses como a Missão Santa Cruz e o Centre Social d’Action Communautaire de Montréal (antigo Centro Português de Referência e Promoção Social) que fazem um excelente trabalho. Os idosos e os nossos jovens, são outras das minhas prioridades.

LP – Para terminar, o que é que faz o fascínio do Plateau?

IS – É a arquitectura, a sua dinâmica cultural, o vigor e a criatividade dos comerciantes, assim como a tolerância dos seus habitantes.