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Quando as testemunhas de Jeová me batem à porta, o discurso é quase
sempre o mesmo. Não acha que o mundo vai de mal a pior?»
Em geral discordo desta premissa. Embora saiba que a minha réplica seja
inútil, sempre me atrevo a apontar-lhes para os progressos da humanidade,
comprovados pelos factos, tanto no campo da medicina, como da ciência, da
técnica, ou das comunicações. A vida dos humanos é hoje menos ameaçada, mais
confortável e mais longa que a das gerações que nos precederam. As pestes e
as fomes que dizimaram continentes estão relegadas aos compêndios de
história. A mortalidade infantil, os estragos da poliomielite, as
amputações, e tantas maleitas que a medicina moderna consegue controlar
fazem com que o homem moderno tenha a maior esperança de vida de sempre.
É um facto que não é toda a humanidade que beneficia deste progresso
material. Mas lentamente ele vai chegando a toda a parte. Ainda não há
muitos anos tanto a China como a Índia contavam por milhões, anualmente, as
vítimas da fome, da seca ou das inundações. Hoje são auto-suficientes graças
à tecnologia agrária, genética e de engenharia. No meu espírito está bem
claro que a humanidade tem feito progressos técnicos notáveis. E as mudanças
não param. Particularmente no campo das comunicações, da electrónica, da
biologia e da nano tecnologia. Quando compro um livro de informática, a
minha primeira reacção é de ver a data de publicação. Se tem mais de um ano
há grandes possibilidades que já esteja ultrapassado. O mesmo não poderei
dizer dos livros de filosofia, ética ou moral.
Os discursos dos moralistas da antiguidade grega continuam tão actuais hoje
como há 4 mil anos atrás. Com efeito os progressos da ética e da moral têm
sido muito poucos não obstante todo o arsenal tecnológico que a civilização
conseguiu produzir até hoje. Dir-se-ia mesmo que os valores morais de há uma
geração a esta parte têm vindo a retroceder. E isto tanto a título
individual como colectivamente.
A título individual, sobretudo nas nossas sociedades ocidentais, é como se
prevalecesse a lei do cada um por si. As regras de boa educação que guiavam
os indivíduos a conduzir-se em sociedade foram substituídas pelas regras dos
legisladores. É preciso multas para controlar os peões e os automobilistas.
É preciso a polícia para resolver os problemas dos maridos e das mulheres,
dos pais e dos filhos. São precisos psicólogos para resolver os problemas
dos alunos e dos professores. E assim por diante. A ética anda tão por baixo
que a própria expressão VALORES MORAIS parece ter caído em desuso.
Mas no campo colectivo a coisa parece-me ser ainda mais grave. A começar
pelo Estado que devia ser a primeira instância a ocupar-se do bem dos
cidadãos e que está a ser minado pelas forças do dinheiro, das ambições
políticas ou interesses corporativistas, completamente indiferentes às
necessidades dos contribuintes e da população em geral. Eles são as
corporações mais interessadas nas vantagens da própria classe que do
público, como serve de exemplo o triste caso das crianças mutiladas pelo Dr.
Paul-André Latulipe, vindo a lume esta semana nos jornais e na televisão, e
que foi protegido pela Ordem dos Médicos do Quebeque (Collège des médecins)
durante treze anos. Eles são os sindicatos dos serviços públicos que não têm
respeito nenhum pelo patrão que é o público que lhes paga os salários, os
estragos e os aguenta nas greves. Sejam eles condutores de autocarros,
bombeiros ou polícias, o objectivo deles é o de defenderem os interesses da
classe pouco importa os prejuízos causados ao público.
Entretanto o bom povo lá vai andando, adormecido pela televisão, pelos
talk-shows, e pela imprensa bem controlada por meia dúzia de tubarões. Como
dizia um autor desconhecido, a nossa sociedade de consumo produziu os
melhores escravos de sempre. Gente que quer trabalhar, sem resmungar, sem
chicote, e que se sente contente com a sorte que tem.
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