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  Progresso não é tudo
     

por Carlos de JESUS

       

Quando as testemunhas de Jeová me batem à porta, o discurso é quase sempre o mesmo. Não acha que o mundo vai de mal a pior?»
Em geral discordo desta premissa. Embora saiba que a minha réplica seja inútil, sempre me atrevo a apontar-lhes para os progressos da humanidade, comprovados pelos factos, tanto no campo da medicina, como da ciência, da técnica, ou das comunicações. A vida dos humanos é hoje menos ameaçada, mais confortável e mais longa que a das gerações que nos precederam. As pestes e as fomes que dizimaram continentes estão relegadas aos compêndios de história. A mortalidade infantil, os estragos da poliomielite, as amputações, e tantas maleitas que a medicina moderna consegue controlar fazem com que o homem moderno tenha a maior esperança de vida de sempre.
É um facto que não é toda a humanidade que beneficia deste progresso material. Mas lentamente ele vai chegando a toda a parte. Ainda não há muitos anos tanto a China como a Índia contavam por milhões, anualmente, as vítimas da fome, da seca ou das inundações. Hoje são auto-suficientes graças à tecnologia agrária, genética e de engenharia. No meu espírito está bem claro que a humanidade tem feito progressos técnicos notáveis. E as mudanças não param. Particularmente no campo das comunicações, da electrónica, da biologia e da nano tecnologia. Quando compro um livro de informática, a minha primeira reacção é de ver a data de publicação. Se tem mais de um ano há grandes possibilidades que já esteja ultrapassado. O mesmo não poderei dizer dos livros de filosofia, ética ou moral.
Os discursos dos moralistas da antiguidade grega continuam tão actuais hoje como há 4 mil anos atrás. Com efeito os progressos da ética e da moral têm sido muito poucos não obstante todo o arsenal tecnológico que a civilização conseguiu produzir até hoje. Dir-se-ia mesmo que os valores morais de há uma geração a esta parte têm vindo a retroceder. E isto tanto a título individual como colectivamente.
A título individual, sobretudo nas nossas sociedades ocidentais, é como se prevalecesse a lei do cada um por si. As regras de boa educação que guiavam os indivíduos a conduzir-se em sociedade foram substituídas pelas regras dos legisladores. É preciso multas para controlar os peões e os automobilistas. É preciso a polícia para resolver os problemas dos maridos e das mulheres, dos pais e dos filhos. São precisos psicólogos para resolver os problemas dos alunos e dos professores. E assim por diante. A ética anda tão por baixo que a própria expressão VALORES MORAIS parece ter caído em desuso.
Mas no campo colectivo a coisa parece-me ser ainda mais grave. A começar pelo Estado que devia ser a primeira instância a ocupar-se do bem dos cidadãos e que está a ser minado pelas forças do dinheiro, das ambições políticas ou interesses corporativistas, completamente indiferentes às necessidades dos contribuintes e da população em geral. Eles são as corporações mais interessadas nas vantagens da própria classe que do público, como serve de exemplo o triste caso das crianças mutiladas pelo Dr. Paul-André Latulipe, vindo a lume esta semana nos jornais e na televisão, e que foi protegido pela Ordem dos Médicos do Quebeque (Collège des médecins) durante treze anos. Eles são os sindicatos dos serviços públicos que não têm respeito nenhum pelo patrão que é o público que lhes paga os salários, os estragos e os aguenta nas greves. Sejam eles condutores de autocarros, bombeiros ou polícias, o objectivo deles é o de defenderem os interesses da classe pouco importa os prejuízos causados ao público.
Entretanto o bom povo lá vai andando, adormecido pela televisão, pelos talk-shows, e pela imprensa bem controlada por meia dúzia de tubarões. Como dizia um autor desconhecido, a nossa sociedade de consumo produziu os melhores escravos de sempre. Gente que quer trabalhar, sem resmungar, sem chicote, e que se sente contente com a sorte que tem.
 

  
       
 
       

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